Buritis, MG, 19 (AE) - -Duzentos e cinquenta homens do Exército ocuparam nesta madrugada a Fazenda Córrego da Ponte, do presidente Fernando Henrique Cardoso. Em frente a fazenda 200 assentados, ligados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, montaram acampamento na terça-feira e ameaçam invadir a terra caso o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) não libere recursos para custeio e investimentos em plantio. Ontem (18) os sem -terra saquearam um caminhão que saía da Córrego da Ponte. Hoje, por volta das 17 horas um helicóptero do Exército chegou à fazenda.
A ocupação da fazenda foi feita por homens do Batalhão da Guarda Presidencial (BGP), as 3h. Os militares montaram barracas e têm mantimento para ficar no local por um prazo mínimo de quinze dias. "Ficaremos aqui o tempo que for necessário", disse o comandante do BGP, coronel Alberto Fonseca
que coordenou a operação. Homens do Comando de Operações Táticas (COT) da Polícia Federal também permanecem no local.
Pela manhã os militares fizeram o reconhecimento da área acompanhados pelo administrador da fazenda, Wander Gontijo, e tropas ocuparam locais estratégicos da propriedade para impedir uma possível invasão pelos assentados. Apesar das negociações, os assentados não descartam a possibilidade de invasão.
QG - O envio do Exército para região foi determinado pelo presidente da República em exercício, Marco Maciel. "Estamos aqui para garantir a integridade do patrimônio", explicou Fonseca. O Exército montou uma espécie de quartel-general na fazenda. São 12 caminhões para transportes da tropa, jipes, ambulância, bombas anti-distúrbios sociais, cães adestrados e fuzis tipo FAL. Todos os soldados estão usando coletes à prova de bala.
Sem acordo - O líder do MST no acampamento, Gilmar de Oliveira, disse que a presença do Exército não muda os rumos do movimento. Segundo ele, os trabalhadores vão permanecer em vigília em frente à fazenda até ao atendimento da pauta de reivindicações. Os assentados vieram de 22 assentamentos de cinco municípios e dois acampamentos em fase de regularização.
A presença do Exército teria sido motivada pelo saque, ontem (18), de um caminhão que deixava a fazenda carregado com 100 sacos de adubo e cinco de sementes de soja. Durante o saque, a PM de Minas Gerais -que está no local desde terça-feira -, começou a desmobilizar seu efetivo, reduzindo-o de 95 homens para apenas 20. A PM ficará agora responsável pela segurança externa da propriedade.
Reunião - A reunião dos diretores do Incra, Eduardo Freire (Crédito) e Maria de Oliveira (Conflitos Agrários) com os líderes do acampados, suspensa por duas vezes, acabou sem acordo. Freire disse que a decisão oficial sobre a liberação do crédito para custeio (cerca de R$ 3 milhões), a principal reivindicação dos agricultores, só seria anunciada se os trabalhadores deixassem o acampamento. Caso o dinheiro não saia até dia 30, os agricultores não vão plantar.
A proposta de Freire, que para o MST foi uma imposição, revoltou a comissão de assentados que foi à Serra Bonita - vilarejo com 1.500 pessoas, a 15 quilômetros do acampamento - para discutir um acordo que garantisse a liberação imediata dos recursos. "Vocês não vieram negociar, mas mandar a gente ir embora", protestou o coordenador do MST nacional, Lucídio Ravanello, que abandonou a reunião. Para o diretor do Incra, os líderes do MST adotaram uma "posição radical".
Ravanello telefonou para o presidente do Incra, Francisco Orlando Muniz, propondo uma conversa dele com uma comissão de assentados, o que foi aceito. A comissão, formada por cinco trabalhadores, viajou à tarde para encontrar-se com Muniz em Brasília.
Antes da viagem, os trabalhadores decidiram manter a vigília, melhorar as instalações do acampamento, exigir a saída da Polícia Federal do local e excluir os informantes (os chamados P2) da PM infiltrados entre os assentados. Devido à demora para resolver o impasse, alguns agricultores falam em ir embora e voltar ao trabalho. É o caso de Carmosino Ferreira Lima
de 53 anos, do assentamento Campininha, em Buritis, que se dizia revoltado com a demora na liberação do crédito.

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