Roma, 19 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso comemorou hoje a melhora nas contas externas brasileiras com a redução do déficit em transações correntes no mês de outubro, anunciada pelo Banco Central na última quinta-feira. "É uma notícia alentadora", afirmou, durante entrevista ao programa "De Olho no Mundo", transmitido pela rádio "Eldorado-AM" e produzido em conjunto com a rede "BBC" de Londres. O presidente reafirmou que a atual pressão inflacionária é causada por fatores sazonais, como a alta dos preços da carne e do feijão, provocada pela entressafra, e voltou a criticar as análises mais pessimistas sobre a inflação.
"Os economistas fazem uma embrulhada e quase sempre erram em suas previsões", disse Fernando Henrique, frisando que essas avaliações "assustam o povo". Para ele, um governo sério não deve ficar discutindo sobre de quem é a culpa pela inflação, mas sim atuar para que ela não saia do controle. "E não vai sair do controle", garantiu. Em conversa gravada na sede da embaixada brasileira em Roma, o presidente lembrou que o governo já conseguiu controlar a inflação duas vezes durante o Plano Real, no início do lançamento da moeda e no começo deste ano, após a desvalorização.
Ele considerou positivo o fato de o País estar discutindo hoje se a inflação anual será de "sete, oito ou oito por certo e mais um pouquinho" e refirmou sua convicção de que não haverá alta generalizada de preços. "Não há uma ameaça global", insistiu. O presidente admitiu cautela com índices, afirmando que "um governo sério observa com atenção", mas procurou descaracterizar a alta da inflação como um processo consistente. Referindo-se especificamente sobre o IGP-M divulgado na quarta-feira, que subiu para 1,87%, o presidente disse que se trata de um índice de preços no atacado, e não ao consumidor.
Às vésperas de participar da reunião dos chefes de Estado que vão discutir a Terceria Via, Fernando Henrique Cardoso voltou a criticar o protecionismo dos países ricos. Para o presidente, não tem sentido que "países como os nossos, da América Latina, que fizeram grande esforço de liberalização das suas economias, enfrentem restrição tão grande dos países ricos". O governo brasileiro vem se manifestando principalmente contra as restrições impostas ao setor agrícola e promete endurecer sua posição na rodada do milênio da Organização Mundial do Comércio (OMC), que acontece no final deste mês em Seattle (EUA).
"Temos um mercado muito grande, podemos voltar a fechar", ameaçou Fernando Henrique. O presidente, contudo, reconheceu que esta medida seria negativa, por provocar aumentos de preços. Ele adiantou ter conversado sobre a Rodada do Milênio da OMC com o presidente eleito da Argentina, Fernando De la Rúa, e afirmou que deverá haver uma unidade "muito grande" entre Brasil e Argentina no Mercosul.
Ele admitiu que tem havido dificuldades no relacionamento entre Brasil e Argentina, mas atribuiu os problemas à recessão vivida pelos dois países no começo deste ano e disse que a recessão "passará" e, no Brasil, "já está passando". "Não podemos deixar que questões específicas tragam prejuízo geral", afirmou o presidente. Ainda sobre o futuro do Mercosul, o presidente defendeu que os países se imponham disciplina fiscal coletivamente e comentou proposta feita pelo economista americano Jeffrey Sachs, de moeda única com câmbio flutuante para o Brasil e Argentina. Para ele, a sugestão deve ser vista "dentro de um processo, mas é o caminho".





