Roma, 18 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso disse hoje em entrevista ao jornal italiano "Corriere della Sera" que a aliança política de centro-direita que o elegeu por duas vezes presidente da República é "fruto das circunstâncias". Resulta, segundo ele, de uma situação que pôs, nas duas últimas eleições gerais, um político que acredita representar a social-democracia no Brasil em oposição aos partidos de esquerda
porque eles representavam uma esquerda "muito conservadora" e "inimiga de qualquer reforma". A proposta que o governo Fernando Henrique executa não representa "um liberalismo desenfreado", mas é a expressão de "uma política responsável".
Publicada hoje sem grande destaque na página 10 do jornal, a reportagem recebeu como título "Terceira Via". "Olhe o meu Brasil." Foi uma referência ao tema que será analisado no próximo domingo por Fernando Henrique, o presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, e os primeiros-ministros da Inglaterra, Tony Blair, da França, Lionel Jospin, da Alemanha, Gerhard Schr”eder, e da Itália, Massimo DAlema. A reunião discutirá uma alternativa política ao neoliberalismo e à social-democracia tradicional - aquela que é contra as privatizações, é corporativista e acredita que a solução para os problemas de um país passa por uma maior intervenção do Estado na economia e na vida da sociedade.
O Corriere della Sera concluiu, no texto da entrevista, que Fernando Henrique acha seu próprio governo e a aliança política que realizou uma referência para uma eventual Terceira Via. Informa que o presidente brasileiro se considerava um político de esquerda que governa com a direita, mas sem excessos neoliberais.
Na entrevista, Fernando Henrique diz que não há mais modelos acabados para a esquerda, que podem ser seguidos em qualquer lugar do mundo. "Não existem mais modelos para a esquerda, admitindo que hoje ainda faça sentido uma divisão tão esquemática entre direita e esquerda", declarou ao jornal italiano. "Simplesmente, cada governo deve adaptar-se à própria situação nacional e procurar seu percurso."
Na avaliação feita por Fernando Henrique ao Corriere della Sera, as diferenças entre as políticas desenvolvidas pelos social-democratas Tony Blair, primeiro-ministro da Inglaterra, e Lionel Jospin, da França, resultam muito mais de circunstâncias nacionais. Para ele, Blair recebeu um país com uma base econômica profundamente alterada por um governo conservador que durou muito tempo - o da ex-primeira ministra Margaret Thatcher.
Já Jospin começou a governar pouco depois do "experimento" de outro social-democrata, o ex-presidente Francois Miterrand, que foi obrigado a fazer uma série de profundas reformas econômicas. Por isso mesmo, segundo ele, o atual primeiro-ministro.
Na entrevista, Fernando Henrique negou que tenha executado uma política neoliberal. "O que eu fiz foi controlar a inflação; para isso comecei uma série de reformas estruturais, entre as quais a quebra dos monopólios do Estado, não porque eu pense que a privatização seja um bem em si, mas porque o Estado era, e é, pesadamente endividado", afirmou. "Eu chamo isso de política responsável, não de neoliberalismo desenfreado, como faz certa retórica da velha esquerda."

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