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quinta-feira, 18 de novembro de 1999
Por Félix Alberto Lima (especial para a AE) 
São Luís, 18 (AE) - A cassação do mandato de José Gerardo de Abreu (sem partido), aprovada hoje pela Assembléia Legislativa, deu início a uma nova etapa nas investigações sobre o crime organizado no Maranhão. Segundo o procurador-geral de Justiça do Maranhão, Raimundo Nonato de Carvalho, o Ministério Público tem informações suficientes para enquadrar Gerardo em pelo menos 10 tipos de crimes, como formação de quadrilha, roubo de carreta, porte ilegal de arma e uso de pista clandestina para pouso de avião.
"O processo de cassação foi importante porque significa o começo de uma nova história para o Estado", disse Carvalho. Ele informa que o número de pessoas envolvidas nos mesmos crimes praticados por Gerardo pode aumentar. "As investigações continuam e ainda há muito o que se descobrir." Os primeiros indícios da existência de uma organização criminosa no Estado são de 1995, quando a polícia localizou uma carreta com carga roubada na garagem da casa do deputado estadual Francisco Caíca (PSD). A casa era de propriedade do empresário Joaquim Laurixto e estava cedida para o deputado cassado José Gerardo de Abreu (sem partido), que a emprestou para Caíca. O delegado Stênio Mendonça, responsável pela investigação do roubo da carreta, foi assassinado dois anos depois por pistoleiros comandados por Humberto Gomes de Oliveira, o Bel. Os pistoleiros foram presos e
12 dias depois, também foram assassinados numa suposta operação de queima de arquivo.
Joaquim Laurixto chegou a ser preso por suspeita de envolvimento na morte do delegado, mas foi beneficiado pelo habeas corpus assinado, na madrugada do mesmo dia da prisão, pelo juiz Luís de França Belchior. Laurixto voltou a ser indiciado pela polícia, mas encontra-se foragido há dois anos.
As primeiras denúncias de haver uma conexão entre a morte do delegado Mendonça e o narcotráfico comandado pelo ex-deputado Hildebrando Pascoal (sem partido), do Acre, foram feitas pelo motorista e segurança Jorge Meres, preso em maio deste ano no interior do Maranhão por roubo de carga.
Meres era o motorista da carreta encontrada há quatro anos na casa do deputado Caíca. Meres entregou à polícia um organograma mostrando como age o crime organizado no Maranhão e os nomes dos principais envolvidos, entre deputados, juízes, prefeitos, delegados e policiais. O motorista apontou Gerardo como o líder da organização no Estado, auxiliado pelo deputado Caíca e pelo ex-deputado Hemetério Weba. O inquérito policial foi instaurado para investigar as denúncias e a Gerência de Justiça e Segurança Pública tem atualmente 16 delegados trabalhando nas investigações. Uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado foi instalada há dois meses pela Assembléia Legislativa.
Foi a CPI que iniciou o processo de cassação de Gerardo aprovado hoje pela Assembléia Legislativa.Marília Mendonça, viúva do ex-delegado Stênio Mendonça, ficou emocionada quando foi anunciado o voto final de cassação de Gerardo. "É um grande começo porque ele perdeu o mandato e agora passa a ser um bandido comum." Marília diz que o seu desejo por justiça ainda não está completo.
"Ainda estão soltos os ex-policiais Claudenil de Jesus, o Japonês, e Raimundo Jorge Gabina de Castro." Segundo ela, Japonês era o dono do veículo usado pelos pistoleiros que mataram o delegado e Castro foi encontrado com a arma do crime.
A CPI do Crime Organizado já deu início ao processo de cassação do deputado Francisco Caíca que, ao contrário de Gerardo, que sempre negou as acusações de assassinato e participação em roubo de cargas e carretas, é réu confesso em pelo menos um crime. Em depoimento prestado à CPI, o deputado confessou a co-autoria no assassinato de Carlindo Souza Cunha, ex-funcionário da empresa de transportes de Gerardo.
Caíca assumiu também ter ficado sabendo, como deputado, da trama que resultou na morte do delegado Mendonça. Por não denunciar a conspiração à polícia, ele é acusado de cúmplice no assassinato. Francisco Caíca terá as próximas cinco sessões ordinárias da Assembléia Legislativa para apresentar sua defesa. O processo de cassação deverá ser votado até o dia 15 de dezembro, data em que os deputados entram em recesso.


