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quinta-feira, 18 de novembro de 1999
Por Fausto Macedo 
Campinas, SP, 18 (AE) - A CPI do Narcotráfico vai requerer a prisão de 50 policiais civis e militares, empresários, comerciantes e assaltantes envolvidos com o crime organizado em Campinas. A medida foi antecipada hoje pelo presidente da comissão, deputado Magno malta (PTB-ES). A CPI está convencida de que grande parte do efetivo policial está associado a quadrilhas que se dedicam ao roubo de carretas e lavagem de dinheiro do tráfico de entorpecentes. "Estamos certos de que a cidade de Campinas é o coração financeiro de uma organização que tem ramificações em pelo menos 14 estados", avalia Malta.
Segundo o deputado-relator Moroni Torgan (PFL-CE), "São Paulo não está devendo nada para o Acre e o Maranhão em termos de corrupção". A CPI criticou duramente o que chama de "omissão" do governo Mário Covas (PSDB). Conforme os parlamentares que estão em Campinas, o Palácio dos Bandeirantes e a Secretaria de Segurança Pública não se manifestaram e nem tomaram qualquer medida de apoio aos trabalhos desenvolvidos em Campinas. Os parlamentares suspeitam de que o governo paulista não dará respaldo às apurações que deverão prosseguir quando a CPI retornar a Brasília.
As prisões serão requeridas à Justiça pela CPI em oito dias, quando será concluído o sub-relatório de Campinas. Os deputados que investigam as atividades do grupo criminoso acreditam terem descoberto a contabilidade da corrupção na polícia com a apreensão de disquetes de computador no escritório do advogado Arthur Eugênio Matias, primeiro a ser preso pela CPI na cidade. A prisão aconteceu na madrugada de quarta-feira. Matias é apontado como o "braço jurídico" do crime organizado e seria ligado ao empresário Willian Sozza, que está foragido.
A Polícia Federal decodificou os arquivos do computador do advogado encontrando uma relação de nomes de policiais e de repartições da Segurança Pública estadual, além de lançamentos de valores em dinheiro. O deputado Magno Malta disse que, no final dos trabalhos, a CPI vai recomendar ao governo Covas que desarquive processos disciplinares e inquéritos sobre crimes de policiais que nunca foram esclarecidos.
"Vamos indicar ao governo do estado que promova a prisão administrativa de agentes envolvidos com bandidos", disse Malta. "Uma parte da polícia no País inteiro e particularmente em São Paulo está bichada, precisa ser peneirada pelo próprio aparelho do governo paulista."
Para a CPI, o caso que revela o elevado grau de ligação de policiais com criminosos é o do delegado Ricardo de Lima, preso na noite de quarta-feira. Lima trabalhava na Delegacia de Investgações sobre Entorpecentes (DISE) em janeiro, quando foram apreendidos 340 quilos de cocaína no município de Indaiatuba. Cinco traficntes foram presos.
Uma semana depois, a droga foi roubada do posto do Instituto Médico legal. O delegado é acusado pela CPI de formação de quadrilha, prevaricação, corrupção passiva e tráfico de entorpecentes.
A prisão de Lima foi decretada pelo juiz-corregedor Paulo Eduardo de Almeida Sorci. "Acho estranho um cara desses não estar na cadeia há muito tempo", disse o deputado Moroni Torgan. Ele condenou a "comissão da Corregedoria da Polícia Civil". Torgan revelou que grande parte das denúncias que chegam à CPI aponta para um esquema de propinas nas cidades às margens da rodovia Anhanguera como Limeira, Jundiaí e Campinas.
O delegado Ricardo de Lima passou a noite em uma sala -sem grades- da Divisão de Investigações Gerais. Segundo seu advogado
Miguel Vulcano, o delegado está abatido. Vulcano entrou na Justiça com pedido de revogação da prisão do policial. O delegado regional de Campinas, Orlando Miranda, disse que Lima será transferido para o Presídio da Polícia Civil em São Paulo. O delegado e o advogado Arthur Matias deverão ficar detidos pelo prazo de 30 dias. Matias está recolhido no quartel do 8º Batalhão da Polícia Militar, em Campinas. O advogado dele, Salvador Scarpelli, entrou hoje com habeas corpus em favor de Matias.
Para o delegado regional de Campinas, a prisão de seu colega "é muito chocante". Ele disse que Lima "foi submetido a uma situação muito vexatória". Segundo Orlando Miranda, o delegado foi "desrespeitado". O regional afirmou que a testemunha que acusou Lima na CPI -o assaltante Gilmar Leite Siqueira, condenado há 19 anos de prisão- "já deu várias versões sobre o mesmo caso". Gilmar disse que o delegado participou de golpes de extorsão e assassinatos de queima de arquivo.
O presidente da OAB em Campinas, Aderbal Bergo, também criticou os trabalhos da CPI. Para Bergo, "um órgão de investigação não pode ser o mesmo que acusa e julga". O presidente da CPI, deputado Magno Malta, reagiu: "Ele diz que a CPI está extrapolando mas quero dizer que essa gente pisa na lei para cometer crime e quando é apanhado na malha a mesma lei tem que estar à disposição deles." O parlamentar lembrou que o advogado Arthur Matias tentou propor um acordo para evitar a prisão e não ser processado. À CPI, o advogado teria mentido ao afirmar que nunca esteve na 37ª Delegacia de Polícia da Capital (Campo Limpo).
O assaltante Jorge Meres acusou o advogado de ter feito "acerto de corrupção" naquele distrito policial. "Nunca fui nessa delegacia", assegurou Arthur Matias. Na quarta-feira, no escritório do advogado, no centro de Campinas, a Polícia Federal encontrou um cartão de visitas de policiais da 37ª Delegacia. "É mais um indício do envolvimento desse advogado com policiais corruptos", acredita o deputado Robson Tuma (PFL-SP).


