Campinas, SP, 18 (AE) - A CPI do Narcotráfico acredita que começou a desvendar o esquema montado em Campinas para lavagem de dinheiro e remessa ilegal de recursos para o exterior. As operações clandestinas seriam feitas por meio de contratos de patrocínio de atletas e pilotos de carros. O empresário Alexandre Negrão, dono da Medley Produtos Farmacêuticos, é apontado pela comissão como um dos principais envolvidos nestas operações. Em 1993, Negrão foi indiciado por falsidade ideológica no inquérito que investigou as ramificações do esquema PC Farias -morto em junho de 1996- ex-tesoureiro de campanha do presidente Fernando Collor.
O empresário teria feito depósitos no valor equivalente a US$ 1,5 milhão em uma conta fantasma do esquema PC em nome do laranja José Antonio Pavino -na época, jardineiro de Negrão. Segundo a Polícia Federal, o empresário contribuiu com o esquema porque pretendia receber recursos devidos à sua firma pela Central de Medicamentos (Ceme).
Agora, Negrão está na mira da CPI do Narcotráfico porque teria ligações com Willian Sozza, tido como o cérebro do crime organizado em Campinas. A comissão recebeu denúncias de que Negrão seria um suposto fornecedor de matéria-prima para o refino de drogas. Atualmente, ele é dono da Medley, que substituiu o Instituto Químico de Campinas (IQC). A Medley tem faturamento anual de R$ 100 milhões.
Negrão chegou para depôr acompanhado de seu advogado, o criminalista Paulo José da Costa. Pouco depois, às 15h30 de hoje
entrou no plenário do salão do júri do Fórum Criminal de Campinas -onde a comissão parlamentar se instalou- o empresário Alberi Spindola, apontado como "testemunha-chave". Spindola passou o dia todo trancado em um quarto de hotel sendo ouvido pelo delegado Paulo Lacerda, que presta assessoria técnica para a CPI. Ele deixou o hotal com o rosto coberto por uma manta.
À CPI, Spindola, proprietário de uma empresa de componentes eletrônicos e outra dedicadas a eventos -contou que entre 1993 e 1994 firmou instrumento particular de contrato de patrocínio com Negrão. O dono da Medley teria depositado em uma conta da AMS Eventos Esportivos, de Spindola, soma equivalente a US$ 2 milhões. Esse dinheiro deveria ser empregado na patrocínio de um filho de Spindola, que é piloto. O contrato foi autorizado pelo Banco Central mas o dinheiro depositado em uma conta do Banco do Brasil, que deveria ser para o patrocínio, acabou sendo resgatado por Negrão, segundo revelação de Spindola. "Na minha conta ficou apenas uma quantia de R$ 50 mil".
Durante o depoimento, Negrão ficou irritado com as perguntas do deputado Robson Tuma (PFL-SP) que insistia em obter detalhes sobre as operações. "Se o senhor gritar comigo eu grito também", disse o empresário. A deputada Laura Carneiro (PFL-RJ) pediu a decretação da prisão do empresário, sob alegação de desacato à CPI. O presidente da comissão, deputado Magno Malta (PTB), decidiu prosseguir com o depoimento.

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