Belfast, Irlanda do Norte, 18 (AE-AP) - Depois de séculos de violência e desconfianças entre protestantes e católicos, a paz definitiva na Irlanda do Norte (Ulster) está ao "alcance das mãos", segundo o mediador americano George Mitchell, que hoje (18) encerrou 11 semanas de complicadas conversações com as partes. Ao mesmo tempo, Mitchell afirmou que o grupo extremista católico Exército Republicano Irlandês (IRA) deve iniciar as negociações para o desarmamento no mesmo dia que a administração protestante-católica for instalada.
Respeitado por católicos e protestantes, o ex-senador americano foi chamado pelos governos da Grã-Bretanha e da República da Irlanda para tirar de um estancamento de 20 meses as negociações para aplicação dos termos do acordo da Sexta-Feira Santa (firmado em 10 de abril de 1998).
Os protestantes, liderados pelo Partido Unionista do Ulster (UUP), a maior agremiação política do território, exigiu o desarmamento do IRA como condição indispensável para a retomada do diálogo. Ao contrário, o IRA, representado pelo Sinn Fein, pedia, antes de tudo, a criação de instituições democráticas no Ulster.
Depois de exaustivas reuniões em separado com o protestante David Trimble, líder do UUT, e com o católico Gerry Adams, líder do Sinn Fein, Mitchell obteve consenso deles em torno de uma fórmula aparentemente simples: formação de um governo autônomo (como pede o acordo da Sexta-Feira Santa) e início simultâneo do desarmamento. "Ambos, o governo autônomo e a entrega das armas, devem começar no mesmo dia."
O IRA concordou e divulgou uma declaração comprometendo-se a designar um representante para negociar a entrega das armas com uma comissão independente internacional, chefiada pelo general canadense John de Chastelain.
Trimble vai defender a fórmula de Mitchell em um congresso do UUT, marcado para dia 27. Ele vem sendo duramente criticado pela ala radical do partido. Alguns dirigentes protestantes o qualificam de "traidor". É o caso do reverendo Iam Paisley que o acusa de ter abandonado um item fundamental no processo: a exigência prévia de desarmamento do IRA.
Na defesa do acordo da Sexta-Feira Santa na reunião de cúpula do UUT no ano passado, Trimble obteve expressiva vitória: 70% dos congressistas aprovaram a paz naquela ocasião. "A divisão hoje no partido é maior", lembrou um analista de política norte irlandês. "Trimble deve vencer, mas por uma margem muito estreita."
Embora otimista, o próprio Mitchell (que retorna aos Estados Unidos), admitiu ao se despedir das lideranças locais e pedir a criação imediata de instituições democráticas e o desarmamento total: "Estamos ainda num processo, não num ato final."
Se Trimble (prêmio Nobel da Paz de 1998) sair derrotado, o UUT passará para as mãos dos falcões que exigem maiores garantias do IRA e de seu braço político, Sinn Fein. Vencendo, chefiará, como líder do maior partidos do Ulster, um governo autônomo com participação de membros do Sinn Fein.
Mitchell não marcou nenhuma data para a constituição do governo e início do desarmamento dos grupos paramilitares. Sabe-se, contudo, que, no caso do desarmamento, o acordo da Sexta-Feira Santa prevê o encerramento das negociações para junho de 2000. Nos últimos 30 anos do conflito norte-irlandês morreram 3,5 mil pessoas.





