São Paulo, 18 (AE) - Embora Frieder Schlaich e Irene Von Alberti tenham realizado Half Moon no Marrocos, a pátria de adoção de Paul Bowles, baseados no escritor, no cinema ele é principalmente O Céu Que Nos Protege, que Bernardo Bertolucci adaptou do romance The Sheltering Sky. Mas as relações de Bowles com a chamada sétima arte vão muito além. Ele era fascinado pelo cinema. Compositor, os críticos quase sempre lhe atribuem a autoria da música de Sedução da Carne, a obra-prima de Luchino Visconti nos anos 50. Errado: Bowles não fez a música para o clássico viscontiano. Traduziu seus diálogos para o inglês, na versão internacional do filme.
Ele amava Visconti e Federico Fellini. Apesar dessa preferência pelo cinema italiano (detestava Hollywood, como, de resto, todo o mundanismo norte-americano, o que o levou ao exílio marroquino), não conhecia Bernardo Bertolucci e até se surpreendeu quando ele adquiriu de William Aldrich, filho do grande Robert, os direitos de adaptação. William tentou levantar recursos para uma produção independente baseada no livro, nos anos 50. Não conseguiu. Revendeu os direitos para Bertolucci que
depois da enxurrada de Oscars por O Último Imperador, podia fazer o que quisesse. Escolheu prosseguir com a temática oriental.
O Céu Que Nos Protege é a segunda parte do que não deixa de ser uma trilogia (sem muita unidade). Começa com O Último Imperador, prossegue com The Sheltering Sky e termina com O Pequeno Buda. Três filmes imersos na cultura e na filosofia orientalistas. Bowles ficou tão encantado por Bertolucci que aceitou o convite do cineasta para fazer uma participação. Ele não diz uma palavra em O Céu Que Nos Protege. Fala com olhos. Bertolucci pediu-lhe que expressasse no olhar toda a dor e a tristeza da memória.
São duas cenas, apenas. Na primeira, Bowles está no bar em que Kit e Port travam um diálogo decisivo. Na segunda, no fim do filme, a personagem da mulher, interpretada por Debra Winger, volta ao bar e lá está de novo Bowles, como uma testemunha silenciosa da sua experiência. A presença do narrador original, o autor, empresta curiosa dimensão a O Céu Que Nos Protege, como se Bertolucci fizesse a literatura invadir o espaço do cinema.
Talvez seja a essência do projeto deste filme, que se constrói numa tensão permanente entre palavra e imagem, entre gesto e olhar. Não é o melhor Bertolucci, mas tem classe. As imagens do deserto, fotografadas pelo mago Vittorio Storaro, são grandiosas, esse deserto que Bertolucci, seguindo a trilha de Bowles, trata em duplo sentido - como experiência real e metafórica. O próprio Bowles era um estrangeiro, no sentido camusiano, no Marrocos. Kit e Port não deixam de ser ele e sua mulher, Jane Bowles, também escritora (e também homossexual, como ele). Viveram uma história de amor intensa e estranha.
De maneira um tanto superficial, O Céu Que Nos Protege, livro e filme, costuma ser definido como a história da desintegração espiritual de uma mulher sob a luminosidade e sensualidade do sol do deserto. É isso e mais. O deserto de O Céu Que Nos Protege é o do espírito. É o que ajuda a entender por que o livro, como o próprio Bowles, se tornou uma figura cultuada. Ele construiu seu oásis no deserto africano. Se Bertolucci não foi tão grande quanto ele, construiu, mesmo assim, um filme muito bonito.

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