PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 18 de novembro de 1999
Por Antonio Gonçalves Filho 
São Paulo, 18 - A vida de Paul Bowles só não foi um remake do livro "O Imoralista", de André Gide, porque o escritor norte-americano, que morreu hoje, aos 88 anos (faria 89 em dezembro), era original o suficiente para rejeitar imitações. Mas, a exemplo do imoralista gideano, Bowles, cansado da civilização, buscou refúgio entre marroquinos. Instalou-se em 1947 numa cidade lendária, Tânger, encravada entre o paraíso e o Estreito de Gibraltar. Morreu lá mesmo, após ter sido hospitalizado no último dia 7 com problemas cardíacos. O coração falhou e o céu que o protegia fechou suas portas pela última vez. Agora é ouvir Sting cantando "Tea in the Sahara" ou ler seus livros, o que parece bem mais adequado para entender a vida e a literatura do escritor e músico.
Mais conhecido como autor de "The Sheltering Sky" (filmado por Bertolucci como "O Céu Que nos Protege"), Paul Bowles era também compositor, um bom músico que tomou aulas com Aaron Copland e compôs trilhas para balés, peças (de Tennessee Williams) e filmes de amigos (Elia Kazan, Orson Welles). Por nunca mais ter voltado a Nova York, seu agente literário não lhe prestava contas. Há dez anos, quando seu primeiro livro foi traduzido no Brasil, Bowles queixou-se de que não recebia direitos autorais havia anos - e isso vale para todos os seus livros, entre os quais "Let it Come Down" parece ser mais pessoal do que a autobiografia "Without Stopping".
Direitos autorais não importavam muito. No fundo, afirmava Bowles, "nada tem importância na vida, nem mesmo a própria vida". Tinha o que comer, contava com os pratos de Mohammed, seu fiel cozinheiro, e raramente saía de sua toca. Quando o fazia, contava com a força do motorista Abdel, que dirigia seu Mustang 1967 - justamente o ano que marcou sua última visita a Nova York. Como o jovem bancário nova-iorquino de "Let it Come Down", que trocou o tédio por uma vida de aventuras em Tânger, Bowles entregou-se à barbárie (no bom sentido da palavra) e não olhou para trás.
Há um leve toque de Rimbaud e Camus no romance. Pulando de cama em cama e envolvido em negócios ilícitos, o bancário acaba matando um árabe. Não com uma faca, mas um martelo que faz o prego assassino atravessar seu crânio. Era o haxixe, e não o sol camusiano, que esquentava a cabeça e fazia Bowles perder o senso de direção. Em "O Céu Que nos Protege", um casal americano, pelas mesmas razões - tédio da civilização - perde-se no deserto à procura de paixões violentas. A mulher serve de banquete à matula, o homem adoece e a caravana da civilização agonizante caminha em direção ao desespero, à loucura e à morte.
Bowles durou mais que seus modelos. A inspiradora da personagem feminina, sua ex-mulher, Jane, durou menos. O casamento começou a falir porque a senhora Bowles, também escritora, era mulher independente e gostava, como o marido, de pessoas do mesmo sexo. Jane ia para o Sri Lanka, Paul ia para Paris. Jane queria comer comida francesa, Paul queria devorar cuscuz marroquino. Enfim, eram duas almas em conflito como o casal de "O Céu Que nos Protege".
Tânger, nos anos 50, quando Bowles começou a correr atrás de rapazes morenos, era paraíso da devassidão. Administrada por um conselho legislativo multinacional, Tânger atraía de escritores existencialistas a contrabandistas. Foi lá que, alucinado pelas drogas, William Burroughs concebeu Naked Lunch, mas foi também na cidade dourada que a mulher de Bowles, Jane, sofreu um derrame em pleno ramadã de 1957. Nunca mais recuperou a saúde física e mental. Morreu numa clínica psiquitátrica, em Málaga, 16 anos depois, aos 55 anos.
A morte de Jane encerrou a carreira literária de Paul Bowles. Não tinha mais a quem mostrar seus escritos. Mas, em 1992, ensaiou uma volta à composição, escrevendo a música para uma produção árabe da tragédia grega "Hipólito", para a qual Yves-St. Laurent desenhou os figurinos.
De qualquer forma, quando estava louco de haxixe, gostava de ouvir o cozinheiro Mohammed Mrabet, que ficou a seu lado por 30 longos anos, contar histórias das montanhas do Rif. Mrabet é analfabeto. Paul registrou essas histórias no dialeto moghrebi. As fitas devem estar em algum canto da casa do escritor em Tânger. Editores ao trabalho.


