Paris, 18 (AE) - Sabemos há muito tempo que uma das grandes controvérsias do próximo milênio será a respeito da água, distribuída de forma muito desigual entre os continentes e cujos circuitos naturais - os rios - que fluem através de vários países, poderão tornar-se "casi belli" (motivos de guerra).
Ora, existe algo imponente que desempenha um papel nesta questão da água: as barragens, consideradas uma panacéia desde o início de nosso século (eletricidade barata e conveniente, regularização dos rios, armazenamento de água) mas que, há uns 10 anos, tornaram-se alvo de violentos ataques. As represas são acusadas dos piores delitos: catástrofes humanas, culturais, destruição da Natureza.
A barragem de Assuan, no Egito, que foi o símbolo da vontade de independência de Nassar, continua ganhando destaque na imprensa: é considerada um exemplo de massacre de locais históricos importantes e, ao mesmo tempo, do equilíbrio ecológico de uma vasta região.
Mas Assuan não é senão um elo na longa corrente de barragens criadas neste século - a de Tennessee Valley (símbolo do New Deal, de Roosevelt), a contenção do Rhone, na França, por volta de 1945, símbolo da "França Planejadora" de Gaulle e dos socialistas, e, acima de tudo, a mística soviética das grandes barragens (sob o impulso de Lênin), tendo como pioneira a Dnieprogues (represa do Dnieper), cujas imagens inundaram o universo para anunciar que a URSS fazia o mundo entrar numa nova era: aquela em que o homem domina a Natureza para sua própria felicidade.
Poderíamos acreditar que a época dessas barragens "faraônicas" passou. Mas não é verdade: a tradição das represas monstruosas ainda perdura (por exemplo na China) e no mundo inteiro a ameaça de penúria energética e de explosão demográfica justificam a criação de numerosas barragens de porte médio. O jornal inglês "Financial Times" citou 1.600 projetos de barragens (os Estados mais envolvidos são a Índia, a China, a Turquia, a Coréia do Sul, o Japão, o Brasil, a Espanha, a Tailândia e a Romênia).
Alguns exemplos: na Índia, a represa de Maheshwar, no vale de Narmada, deslocará 20 mil pessoas. Um movimento contra a represa critica o projeto, mas seus militantes são presos, fazem greve de fome e a romancista Arundhati Roy publicou um livro, Le co–t de la vie (lançado hoje pela Gallimard na França). Roy dispara uma "barragem" de projéteis de fogo contra as barragens e denuncia estas "grandes obras, mais benéficas ao Banco Mundial, do que aos homens".
Outro projeto gigantesco, na URSS, foi evitado e com razão em 1985 graças ao esgotamento do país e ao advento de Gorbachev: desviar dois grandes rios siberianos, o Ob e o Ienissei, para o Mar Cáspio e o Mar de Aral, com a finalidade de "criar um mar interior".
Hoje, é a China: o projeto "Três Gargantas" acarretará o deslocamento de um milhão de pessoas. Na Turquia, um dos mais importantes lugares culturais do mundo - Hasankeyf (civilizações assíria, romana, bizantina, síria, Abassida e árabe....) corre o pior risco se for construída sobre o Rio Eufrates a represa de Birecik.
As resistências se multiplicam: nos Estados Unidos, a National Wildlife Federation está em pé de guerra, bem como o grupo suíço Déclaration de Berne, ou a União Mondiale pour la Nature (UICN). Estas organizações demonstram que o custo em termos de seres humanos (deslocados de seus lugares de origem) de lugares históricos, de ecologia, é exorbitante. Nos Estados Unidos, assistimos a uma "virada": depois da época das barragens, chegou a época de sua destruição: dentro de vinte anos, 120 obras importantes serão "desconstruidas".
O WWF (Fundo Mundial para a Natureza) garante que as barragens não são nem mesmo "apropriadas". A proliferação de plantas aquáticas deteriora a água , observa-se a produção de metano e de dióxido de carbono devido à decomposição da biomassa florestal submersa.
Os defensores das barragens (entre os quais as empresas interessadas no fornecimento de cimento e de turbinas), retrucam que estes perigos são ilusórios e que, dentro de cinquenta anos, um quarto da população mundial viverá em zonas sem água.

mockup