São Paulo, 18 (AE) - A via diplomática não serve mais para resolver os conflitos técnicos e comercias do Mercosul, já que ela se transformou em um vício, herdado dos primeiros anos de integração, período em que foi eficaz porque os problema eram de cunho político. A conclusão é de economistas da Fundação Capital
um dos escritórios de consultoria mais conceituados da Argentina.
O documento, enviado ao presidente eleito da Argentina, Fernando de la Rúa e obtido com exclusividade pela Agência Estado, conclui que, hoje, a via diplomática mostrou-se claramente inadequada, já que os conflitos são totalmente técnicos. "Dizer que o Mercosul está em crise há algum tempo deixou de ser novidade, agora é necessário quantificar que os efeitos dessas tensões no bloco provocaram uma queda de 28% no comércio regional apenas no primeiro semestre deste ano", acrescenta o documento.
Os economistas da Fundação Capital afirmam que é necessário deixar de lado as posturas de "ação" e "reação", utilizadas durante a crise entre o Brasil e a Argentina e propor mecanismos preventivos que poderiam ser disparados automaticamente, como órgãos de solução de controvérsias ou até normas ou medidas compensatórias. "O Mercosul estará com os dias contados se os países continuarem apelando para a lei de Talião", diz o documento, e acrescenta que a vontade política é ainda necessária mas não é mais suficiente para a consolidação da integração dos quatro países membros.
"As perspectivas de consolidar a integração do Mercosul no próximo ano são melhores do que nos últimos dois anos, período em que o contexto político e econômico foi totalmente desfavorável", alerta o documento. A Fundação Capital lembra que, no próximo ano, não há mais eleições para cargos executivos
e, além disso, está previsto um moderado crescimento econômico regional. "É uma oportunidade histórica a ser aproveitada, mas é necessário levar em conta que, dificilmente, o Mercosul sobreviverá se a crise se estender por mais um ano, seja por desconfiança externa ou por causa da resistência de políticas internas insustentáveis", diz o documento.
A Fundação Capital recomenda o uso da experiência européia (white paper de 1985) para celebrar um "pacto de fortalecimento" entre os parceiros, com um cronograma previsto e com compromissos explícitos que possibilitariam um "relançamento" do Mercosul. Para os economistas argentinos, é de extrema urgência chegar a um consenso no tema do regime cambial, mesmo que este venha a ser lento em caso de uma convergência entre as políticas de cada país. Para eles, esse seria o primeiro passo para chegar a uma convergência macroeconômica, a exemplo do processo de integração européia.
Os acordos setoriais alcançados pelos calçadistas e indústria de papel do Brasil e da argentina foram considerados desgastantes, de negociação "atomizada" e de final incerto pela Fundação Capital. Para a consultoria, embora esse acordos tenham servido para atenuar a crise entre os dois países, eles não servem de forma alguma como estratégia de consolidação definitiva.
"As limitações desse mecanismo ficam evidentes diante da falta de respostas a perguntas obvias", afirmam os economistas argentinos. "O que vai ocorrer nos setores onde os empresários não cheguem a um acordo? ou Como será a negociação em aqueles setores onde um dos países conta com vantagens competitivas sobre o outro?", indagam.
Esta semana, em Montevidéu, o Grupo Mercado Comum (GMC), do qual fazem parte os principais técnicos e negociadores dos quatro países, vão discutir justamente esses temas. Até o dia da reunião de cúpula, marcada para o dia 8 de dezembro, os negociadores terão de encontrar respostas para algumas dessas perguntas.

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