São Paulo, 18 (AE) - Não é por falta de denúncias que a corrupção grassa no Detran. Já em meados dos anos 70, quando o governador era Paulo Egydio Martins, uma sindicância sobre a gestão anterior apontava dados estarrecedores. De 1970 a 75, por exemplo, 160 mil multas não tinham sido pagas. Entre 1971 e 73, cadastros irregulares impediram a cobrança de 1,3 milhão de infrações. O Detran voltou às manchetes em 1979. Em 26 de agosto
um incêndio destruiu o 8.º andar da sede do órgão. A ação literal de queima de arquivo foi comprovada por peritos: o incêndio tinha sido causado por velas acesas deixadas sobre a válvula de dois bujões de gás.
Em 1980, a imprensa estimava em 1 milhão de cruzeiros por dia a receita da caixinha do Detran. Boa parte dela destinava-se a garantir a lacração de carros sem a vistoria exigida por lei. Menos de 15% dos 4 mil veículos lacrados por dia passava pela vistoria. No mesmo ano, uma série de reportagens do jornal "O Estado de S.Paulo" desvendou um esquema de venda de carteiras. Pagando contribuição de 7 mil cruzeiros a uma auto-escola, o candidato passava no exame de motor - o único realizado no Detran, na época - sem responder a nenhuma pergunta. Com isso, pessoas que não sabiam dirigir habilitavam-se a guiar ate ônibus.
O candidato passava por exames médico e psicotécnico em locais indicados pela auto-escola. Uma clínica de Guarulhos cadastrada para tais exames aprovou uma pessoa que morrera cinco anos antes, conforme reportagem publicada pelo "Estado" em outubro de 1980. Miguelzinho - O alcance da corrupção era muito maior do que se suspeitava. Em novembro de 1980, o comandante do policiamento de trânsito da zona sul, coronel Sidney Palácios, denunciou um esquema de venda de carteiras que rendia 40 milhões de cruzeiros por mês. Palácios apontou como chefe do esquema o investigador Miguel da Silva Lima, o Miguelzinho, da Divisão de Habilitação. A apuração do caso chegou até o Palácio dos Bandeirantes, ocupado por Paulo Maluf. Meses antes de o escândalo estourar, Miguelzinho estava para ser afastado. Funcionários do Detran creditaram sua sobrevida no cargo a um telefonema do chefe da Casa Civil de Maluf, Calim Eid (morto no último dia 16 de outubro, num acidente), com ordens expressas para que Miguelzinho permanecesse na divisão. Miguelzinho e 17 investigadores foram afastados do Detran. Antes, porém, ele amealhou patrimônio muito superior à sua renda. Com salário de 18 mil cruzeiros, pagou quase 31 milhões por quatro fazendas e tinha, em janeiro de 1981, saldo bancário superior a 1,5 milhão de cruzeiros.
Em 1983, um ano depois de ter sido expulso da polícia, Miguelzinho foi condenado a 13 anos de prisão. Em 1984, a pena caiu para 1 ano de reclusão. Em 1995, numa nova cruzada por moralização, sindicâncias indicaram que mais de 80% dos prontuários arquivados no Detran tinham documentos falsos. Em março daquele ano, uma auditoria indicou que a agência do Banespa no Detran tinha caixas frios. Por meio deles, foi desviado 35% da arrecadação do IPVA - cerca de R$ 9,5 milhões.

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