Buritis, MG, 18 (AE) - Trabalhadores rurais acampados na frente da Fazenda Córrego da Ponte, pertencente ao presidente Fernando Henrique Cardoso, saquearam hoje pela manhã um caminhão carregado com sacas de adubo e sementes de soja da fazenda. A propriedade fica a 65 quilômetros de Buritis (MG). O saque ocorreu às 7h15, quando o gerente da fazenda, Wander Gontijo, deixava o local em direção à Serra Bonita, cidade próxima a área do acampamento. Segundo Gontijo, os produtos estão avaliados em R$ 3 mil. À tarde, assentados e representantes do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) reuniram-se para discutir as reivindicações dos trabalhadores. Novo encontro deve acontecer amanhã (19).
Pela manhã, os cerca de 200 assentados que estão no local, posicionaram-se na frente do caminhão obrigando Gontijo parar. Em seguida, subiram no veículo retirando um a um os sacos dos produtos. A Polícia Militar de Minas Gerais, que faz a segurança do fazenda de Fernando Henrique, ainda tentou intervir para evitar o saque. Porém, devido à ação rápida dos trabalhadores, os policiais recuaram e o saque prosseguiu. O comandante da PM no local, tenente-coronel José Carlos de Souza, admitiu que os policiais foram pegos de surpresa. "Não esperávamos uma atitude dessa da parte deles", disse. Após a ocorrência, Souza prometeu agir com mais rigor para evitar novos saques.
Além de mudar a tática de ação, a PM também aumentou seu efetivo na Fazenda Córrego da Ponte. O número de policiais aumentou em 20 homens, passando para 55. A PM trouxe cães adestrados para o local. Também, por diversas vezes, os policiais utilizaram escudos e capacetes especiais para conter o assentados. Em poder dos policiais, bombas de gás lacrimogêneo para usar contra os manifestantes, caso necessário. "Não vou tolerar nenhum tipo de excesso", avisou o coronel Souza, depois de fazer um acordo com os assentados. Acordo - Pelo acordo, os trabalhadores não fariam nenhuma manifestação até as 16 horas. O coronel comprometeu-se a buscar um canal de negociação com o Incra, o que, de fato, ocorreu no final da tarde. "Eles (os assentados) não estão roubando a mim, mas ao presidente da República", dizia, nervoso, o gerente Wander Gontijo. Após o saque, Gontijo disse que iria registrar queixa na polícia de Buritis contra os assentados. O gerente ainda apelou para que os produtos fossem devolvidos, mas os trabalhadores não o atenderam. Eles amontoaram as sacas de adubo e sementes de soja num lateral da estrada. Confronto - Apesar do acordo firmado, os assentados voltaram a confrontar-se com os policiais. O ânimos se acirraram por volta das 14h30 depois que um dos líderes do movimento, Gilmar de Oliveira, foi informado que a PM havia retido um caminhão com trabalhadores que vinha de Buritis com destino à fazenda. Após a notícia, eles realizaram uma assembléia e decidiram bloquear a estrada até o ônibus ser liberado. Após a decisão, a PM agiu imediatamente, posicionando sua tropa de choque. Os PMs portavam fuzis e cães adestrados.
Temendo uma ação dos policiais, os manifestantes armaram-se de porretes e tomaram a estrada, deixando o ambiente tenso. Eles afirmavam que somente sairiam do local se o ônibus com mais assentados vindo de Buritis fosse liberado. Houve um princípio de bate-boca, mas o capitão Osvaldo evitou o confronto. Após alguns minutos de tensão, o tenente-coronel Souza, chegou ao local e fez o acordo com os assentados. Souza também trouxe a notícia de que a diretora de Conflitos Agrários do Incra, Maria de Oliveira, e um delegado da Polícia Federal chegariam às 16 horas em Buritis e viriam, em seguida, de helicóptero ao local para negociar uma saída para o impasse. Negociação - A informação de Souza se confirmou no meio da tarde. Às 16h23, os diretores do Incra - Eduardo Freire e Maria Oliveira - chegaram ao local, de helicóptero, acompanhados de um delegado da PF. Em seguida, reuniram-se no acampamento com os assentados, de quem receberam a pauta de reivindicações do movimento. O documento manuscrito foi analisado ali mesmo pelos diretores do Incra.
Os assentados pedem a liberação de crédito para custeio da safra - cerca de R$ 3 milhões - em caráter emergencial, para atender aos assentados de 22 assentamentos e dois acampamentos prestes a serem regularizados. Segundo dirigentes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) que estão no local, como Gilmar de Almeida, cada família teria direito a receber R$ 2 mil para comprar sementes, adubos e outros implementos agrícolas.
Após analisar o documento, os diretores do Incra asseguraram que a liberação dos recursos pode ocorrer até dia 30 deste mês. Mas a proposta do Incra não convenceu aos assentados. Amanhã, eles reúnem-se novamente. Vão discutir ponto a ponto do documento entregue hoje. "Só vamos devolver os produtos (saqueados) se a decisão for favorável aos assentados", avisou o líder Gilmar de Oliveira. Ele não descarta a possibilidade de invasão da área. Oliveira diz que os assentados não aceitam que o problema seja protelado por mais tempo. Os assentados que estão no local vieram dos muncípios de Buritis, Arinos, Formoso e Cabeceiras de Goiás.

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