Salvador, 18 (AE) - Os soldados da Polícia Militar Jonivaldo Batista, de 21 anos, e Neusmar Barreto, de 26, foram mortos a tiros ontem (17) à noite, emboscados por índios pataxó hã hã hãe, em uma das nove fazendas ocupadas no município de Pau Brasil, a 550 quilômetros de Salvador. Depois dos crimes, o governador César Borges (PFL) enviou para área 150 homens do Batalhão de Choque para se juntar aos 80 soldados que já estavam em Pau Brasil. A ordem de Borges foi para desarmar os índios e prender os assassinos, que não haviam sido identificados até a tarde de hoje.
De acordo com moradores da região, a emboscada que resultou na morte dos dois policiais teria ocorrido por volta da 22 horas, numa estrada de barro da Fazenda São Lucas. Uma camionete com dez policiais militares se dirigia a um trecho da fazenda para tentar liberar a rodovia estadual que liga Pau Brasil a Itaju de Colônia, bloqueada pelos índios, quando os pataxó saíram do mato, cercaram a veículo e atiraram. Logo depois fugiram entrando no matagal.
Cerca de 1.200 índios ocupam um trecho de dois mil hectares de nove fazendas da zona rural de Pau Brasil desde terça-feira (16). Eles reivindicam 53 mil hectares de terras da região, cuja posse teria sido confirmada por uma lei estadual de 1936. Mas na década de 70 o governo baiano distribuiu títulos de posse das terras para colonos, que se instalaram na área. Em 1982, a Fundação Nacional do Índio (Funai) entrou com uma ação na Justiça para retomar a posse e retirar os colonos, mas o caso está tramitando até hoje.
Os índios conseguiram retomar, à força, 788 hectares em 97, depois de invadir as terras. A posse foi confirmada, logo em seguida, pela Justiça. Com isso, os índios decidiram retomar a estratégia da invadir as antigas terras nesta semana, mas o clima de tensão na região aumentou. Em 17 anos de conflitos 13 pataxó já foram mortos.
Responsabilidade - Saulo Feitosa, representante do Conselho Missionário Indigenista (Cimi) culpou o governo da Bahia pelos conflitos que resultaram na morte dos dois policiais militares. Segundo ele, a PM não deveria entrar nas terras invadidas pelos pataxós, pois o assunto não é da esfera estadual.
Normalmente quando ocorrem conflitos envolvendo os povos indígenas, a Polícia Federal é requisitada. A posição foi reforçada em duas notas oficiais divulgadas pelo Conselho e pela Funai, que responsabilizam o governo pela violência na região ao determinar que a Polícia Militar invadisse uma área de responsabilidade federal.
Punição - O governador César Borges respondeu que vai punir exemplarmente os culpados pelas mortes . Ele disse que os soldados foram mortos a serviço do Estado para desobstruir uma rodovia estadual bloqueada pelos índios.
Com o clima tenso na região, as escolas de Pau Brasil suspenderam as aulas e o comércio local fechou as portas temendo saques. No final da tarde, funcionários do Sindicato Rural de Pau Brasil, cuja sede está sendo usada como base pela Polícia Militar, informaram que dois pataxós haviam sido presos por porte de armas numa das fazendas invadidas.
O coronel Gilberto Santana, que o comanda a operação de desarmamento, permanecia na zona rural de Pau Brasil até o final da tarde de hoje. Estavam sendo esperados na região o presidente da Funai Carlos Frederico Moré, a procuradora Rachel Dodge e os deputados federais Nélson Pelegrino (PT-BA) e Geraldo Simões (PT-BA) integrantes da Comissão de Direitos Humanos da Câmara.

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