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quinta-feira, 18 de novembro de 1999
Por Jobson Lemos 
São Paulo, 18 (AE) - O diretor do Sindicato dos Trabalhadores na Economia Informal Reinaldo Ferreira de Santana, de 51 anos, foi assassinado a tiros ontem (17) à noite no Brás, zona leste de São Paulo. A polícia investiga duas hipóteses para o crime. Uma leva em conta uma suposta briga que ele teria tido por causa de uma namorada pouco antes de ser morto. Outra considera a possibilidade de vingança.
Santana participou de várias manifestações de ambulantes no bairro e na região central. Prestou depoimento na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Fiscais e na polícia denunciando esquemas de corrupção na cidade. Nos últimos meses, segundo ambulantes do Brás, ele estava sendo acompanhado por seguranças e dizia estar recebendo ameaças de morte.
Ele foi encontrado ainda com vida por policiais militares por volta das 23h30 de quarta-feira. O vigia de um estacionamento na Rua Gomes Cardim ouviu uma série de disparos às 23 horas. "Foi um atrás do outro", disse. "Disparado, rápido mesmo." Tiroteios são comuns ali, segundo ele. Assustado
esperou alguns minutos depois de tudo ficar quieto e ligou para a polícia.
Ele viu pela abertura no portão quando os policiais mediram o pulso de Santana. "Disseram que ele ainda estava com vida." O sindicalista, entretanto, não resistiu aos ferimentos e morreu no Pronto-Socorro da Nossa Senhora do Pari, zona leste. O vigia contou mais de quatro tiros. Ambulantes e sindicalistas disseram que havia oito perfurações de bala no corpo de Santana, uma delas na cabeça. Até o início da noite, o corpo não havia sido liberado pelo Instituto Médico-Legal (IML).
Polêmico - Santana tinha um comportamento paradoxal entre os ambulantes. Apoiou a greve de fome realizada pelos camelôs do Largo da Concórdia, participou de passeatas, mas registrou uma queixa na Polícia Civil contra Afonso José da Silva, presidente do Sindicato dos Camelôs Independentes de São Paulo. Aos policiais, ele disse ter sido ameaçado de morte pelo ambulante. Dias depois, retirou a queixa.
Quando Silva foi baleado, em fevereiro, Santana chegou a ser apontado como suspeito por causa dessa denúncia. "Não havia nada disso", disse Silva hoje. "Quando sofri o atentado ele me acompanhou na ambulância." Em depoimento, Santana disse que Silva, antes de chegar ao hospital, o advertira, pois os homens que o balearam afirmaram que ele seria o próximo.
Silva e outros ambulantes temem ser vítimas de atentados por terem denunciados esquemas de corrupção. "Quanto mais a coisa fica calma, mais me preocupa a idéia de vingança." O ambulante José Ricardo Teixeira da Silva, o Alemão, compartilha o temor de Silva. "Eu também recebi ameaças e acho que o que houve com ele foi crime político." Alemão era companheiro de Santana no sindicato.
Na semana passada, segundo Alemão, Santana percorreu as ruas do Brás em um carro de som acusando pelo alto-falante comerciantes e fiscais de corrupção. "Ele dizia: os lojistas compram ponto." Para Silva, as palavras ríspidas que Santana usava nas manifestações contra várias pessoas não permitem que se possa imaginar quem teria intenção de matá-lo.
Namorada - Santana era separado da mulher com quem tinha dois filhos. Morava com Eridan Marques de Sousa, de 51 anos. Há mais de quatro meses mantinha um romance com Magda, uma garçonete de um restaurante que fica na rua onde ele foi morto. Na terça-feira, avisou Eridan que não voltaria para casa, dormiria fora. "Ele costumava fazer isso", disse Eridan. Ontem
ao passar pela Rua Gomes Cardim, à noite, ela o viu em frente a um bar. "Loira, espera que eu vou com você para casa", teria dito ele para depois mudar de idéia. "Vai indo que depois eu vou."
No restaurante onde Magda trabalha, o proprietário, Antônio Barbosa, disse que não houve nenhuma briga. "Ele chegou
pegou uma bala e ficou brincando comigo." De acordo com ele, Santana tinha por hábito buscar a namorada pouco depois das 20 horas, quando o restaurante fecha. Hoje Magda ligou para Barbosa assustada, dizendo que estava com medo e não iria mais trabalhar. "Ela não deu detalhes do que aconteceu."


