São Paulo, 18 (AE) - Apesar de admitirem reajustes de salários de até 6% neste final de ano, os empresários não acreditam que o controle da inflação esteja ameaçado. Segundo o vice-presidente da Fiesp, Roberto Nicolau Jeha, não há como a indústria deixar de aumentar salários este ano, já que em 98 não houve reajuste. Na sua opinião, os reajustes não devem provocar aumento significativo do consumo. Outro fator a favor da estabilidade de preços, acrescentou ele, é que os empresários estão tendo que segurar aumentos por conta da baixa demanda.
Mas ele dá um recado ao governo: "Quando a atividade econômica for retomada, poderemos repassar nossos custos." O empresário disse que só com a desvalorização cambial, que está em torno de 60% no ano, a indústria absorveu um custo adicional de 12% a 15%, levando-se em conta o coeficiente de importação da indústria, em torno de 20%. Acrescentando nesse cálculo aumentos de carga tributária, como CPMF e Cofins, a despesa das empresas em operações de longo prazo aumentou em mais 7% ou 8%. Sem contar, disse ele, os aumentos de custos derivados dos reajustes dos combustíveis, que afetam diretamente o valor dos fretes. "Com todo esse pacote de medidas desfavoráveis, ficamos fora do mercado externo", lamenta o empresário.
"Enquanto isso", ironiza o empresário, "o governo comemora o aumento da arrecadação." Ele se refere à previsão anunciada ontem pela Receita Federal para a arrecadação de impostos e contribuições federais este ano, que, segundo o governo, deve atingir valor recorde de R$ 146,2 bilhões, crescimento real de 6,75% sobre 98. Nas contas do empresário, a leitura desse resultado é outra. "Se o País vai arrecadar R$ 146 bilhões, pagará R$ 128 bilhões em juros da dívida externa. Isso significa que o governo desembolsará 87% do que arrecada para pagar juros", critica o empresário.
Segundo ele, essa opção pela política monetarista "não livra o País da recessão nem da inflação reprimida." Outra preocupação dos empresários é com relação a uma possível alta juros, como reflexo da pressão inflacionária. Para o diretor do Departamento de Competitividade da Fiesp, Mário Bernardini, caso haja um aumento dos juros, os custos das empresas serão pressionados e a inflação ameaçada. Segundo ele, não há hoje uma inflação de demanda, mas de custo de produção. Ele defende que o governo se preocupe, agora, em reduzir os custos das empresas. "Esse é o momento de o governo manter o comportamento dos juros
e, se possível, reduzir ainda mais as taxas, já muito altas", disse.
De acordo com Bernardini, neste momento em que o mercado começa a mostrar sinais de aquecimento, impulsionado pelas festas de final de ano, o governo precisa saber administrar as pressões internas. Depois, explica ele, no primeiro trimestre do ano -quando a economia recua- o próprio mercado tratará de compensar possíveis pressões sobre os índices econômicos.
Bernardini acrescentou, ainda, que as altas dos preços no atacado e no varejo não indicam ainda uma tendência inflacionária. "É preciso esperar mais um mês para ver se a alta se confirma ou se os aumentos estão realmente concentrados em apenas alguns itens", explicou ele. Ao lado disso, o empresário diz que é fundamental o governo manter o câmbio sob controle.

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