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quarta-feira, 17 de novembro de 1999
Por Fausto Macedo 
São Paulo, 17 (AE) - O delegado Ricardo de Lima, ex-diretor da Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes (Dise) de Campinas, foi indiciado hoje pela CPI do Narcotráfico, sob acusação de irregularidades na realização de um flagrante de apreensão de 340 quilos de cocaína, em 26 de janeiro. A droga, avaliada em R$ 22,2 milhões, acabou sendo roubada seis dias depois do posto do Instituto Médico Legal (IML).
A apreensão havia sido feita em uma chácara no município de Indaiatuba. Seis traficantes foram capturados pela Polícia Militar, mas Lima autuou apenas cinco. Uma mulher, Sônia Aparecida Rossi, apontada como chefe da quadrilha e já condenada a 33 anos e 11 meses de prisão, foi ouvida por Lima na condição de testemunha e liberada.
Os deputados estão convencidos de que o delegado Lima poupou Sônia, "no mínimo por conivência". A traficante foi detida semanas depois mas fugiu da Penitenciária do Tatuapé, na Capital, resgatada por um motociclista. Outro acusado, Cláudio Silva Santos, fugiu no início do mês da Penitenciária de Guarulhos. Ele estava convocado para depor à CPI.
O tom de desafio do delegado Lima irritou os deputados. Ele disse que é um policial experiente e executa seu trabalho "dentro da lei". Contradições e respostas evasivas de Lima fizeram com que a CPI o submetesse a três acareações. A terceira acareação foi com o assaltante Gilmar Leite Siqueira e agitou o salão do júri do Fórum Criminal de Campinas, onde a CPI se instalou. "Agora não tem mais volta, doutor, o leite já derramou", disse Gilmar. "Não devo nada", defendeu-se o delegado.
Gilmar afirmou que conhece "muito bem" o delegado. "Já trabalhei como informante seu, participei de ações com o senhor em apreensão de drogas e armas, extorsões e nas queimas de arquivo", revelou Gilmar para uma platéia atônita que lotava o salão do júri do Fórum Criminal. "Não vou pagar sozinho, doutor", disse o ladrão de caminhões, condenado a 19 anos de prisão. Ele citou os casos de dois traficantes - conhecidos como Paulo do Jardim Samambaia e Farofa - que teriam sido assassinados pelo delegado. "Você está mentindo - rebateu Lima, exaltado -, "nesses casos houve troca de tiros entre policiais e bandidos, você está condenado e não tem nada a perder".
Os deputados perguntaram a Gilmar se ele sabia de ligações entre o delegado e o empresário Willian Sozza, tido como um dos principais integrantes do crime organizado em Campinas. "Vi o delegado com o Sozza umas duas ou três vezes", afirmou o assaltante. "Nunca vi esse Sozza na minha vida, não sei quem é, juro pelos meus filhos", assegurou o delegado. "Você é a laranja podre da polícia", atacou o deputado Pompeo de Mattos (PDT-RS), sub-relator da CPI. "Tenho a minha consciência tranquila", disse Lima. "Sua incompetência aguda beira a ingenuidade", disparou Moroni Torgan (PFL-CE). "Ou o senhor denigre a polícia."
A CPI descobriu também que Lima foi preso em flagrante pela Polícia Federal, em 1985, com material contrabandeado. Ele estava acompanhado de um juiz, um dentista, um industrial e um comerciante. Até hoje, o processo não foi concluído. Segundo Lima, a sindicância administrativa da Polícia concluiu que não havia irregularidades. "Na polícia de Campinas tem bandido, e bastante bandido", avalia Pompeo de Mattos. "Nós estamos que nem galo torto, desconfiando de tudo."


