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quarta-feira, 17 de novembro de 1999
Por Fausto Macedo 
Campinas, SP, 17 (AE) - O advogado Arthur Eugênio Mathias, apontado como o "braço jurídico" de uma poderosa organização de comerciantes de drogas, ladrões de carretas e policiais corruptos, foi preso por determinação judicial na madrugada de hoje. Mathias é acusado formalmente de formação de quadrilha, receptação de mercadorias roubadas, associação para tráfico internacional de cocaína e corrupção. A CPI do Narcotráfico sustenta que o advogado é um dos principais articuladores do grupo comandado pelo empresário Willian Sozza, tido como o elo financeiro e logístico do esquema montado em Campinas, com ramificações em 14 Estados.
O deputado-relator Moroni Torgan (PFL-CE) disse que a prisão de Mathias "vai abalar o alicerce do crime." A ordem de prisão temporária contra o advogado - pelo prazo de 30 dias -, foi expedida pelo juiz-corregedor Paulo Eduardo de Almeida Sorci às 2h50, enquanto Mathias era interrogado e acareado com dois assaltantes no plenário do salão do júri do Fórum Criminal. Às 2h05,os deputados Pompeo de Mattos (PDT-RS) e Robson Tuma (PFL-SP) deixaram o Palácio da Justiça com o texto do mandado de prisão nas mãos e seguiram até a casa do magistrado em uma perua Van da Polícia Federal.
Sorci já aguardava os parlamentares e apenas assinou o decreto, amparado em parecer assinado por seis promotores de Justiça. A decisão foi lida pelo presidente da CPI, deputado Magno Malta (PTB-ES). Segundo o juiz, há "indícios de autoria e materialidade envolvendo o representado como participante dos crimes apurados".
Sorci ressaltou que nos autos há depoimentos que "especificam a ação da quadrilha engendrada para a prática de diversos delitos, dentre eles o tráfico ilícito de entorpecentes". Para o Ministério Público Estadual, que está dando suporte à devassa da CPI, "é inequívoca a necessidade de adoção de medida excepcional como forma de assegurar apuração de gravíssimos delitos e viabilizar o escorreito prosseguimento das investigações, notadamente para se permitir o reconhecimento por vítimas e testemunhas."
Abatido, Mathias ouviu em silêncio o anúncio de sua prisão. O presidente da CPI solicitou ao acusado que ficasse de pé para declarar: "O senhor está preso." O advogado foi levado, algemado, no camburão da PF para o quartel do 8º Batalhão da Polícia Militar, em Vila Industrial. "É uma lição para quem mente perante a CPI e também um aviso: aqueles que não querem colaborar vão ficar atrás das grades", disse Robson Tuma.
Segundo Tuma, o advogado atuava como o "elo de proteção às quadrilhas." Para o deputado, a corrupção policial em Campinas "é impressionante". Ele garantiu que os acertos - atos de extorsão praticados por policiais para libertar ladrões, traficantes e homicidas - serão apurados "e os responsáveis serão expulsos da instituição porque a polícia tem que proteger a sociedade e não usurpá-la."
A prisão do advogado estava decidida desde o final da tarde da terça-feira mas a comissão de inquérito adiou seu anúncio porque trabalhava com a hipótese de que Mathias se dispusesse a delatar todo o esquema - apontando grandes empresários e policiais - em troca da liberdade.
BASTIDORES - Enquanto Mathias era interrogado, alguns parlamentares travaram uma queda-de-braço em uma sala fechada, ao lado do salão do júri. De um lado, Pompeo de Mattos (PDT-RS), sub-relator da comissão, e Robson Tuma (PFL-SP) defendiam a abertura de uma linha de negociação com o advogado. De outro lado, Moroni Torgan, o relator, e Lino Rossi exigiram prisão imediata argumentando que "com bandido não tem negócio." Para o relator, havia o risco de o advogado sumir, como aconteceu com Willian Sozza, desaparecido desde que a Justiça Federal decretou sua prisão, em 14 de outubro. Prevaleceu a determinação de Torgan e Rossi porque o advogado arriscou uma manobra: pediu anistia ampla (liberdade e garantias de que não seria processado) para revelar os segredos do grupo. "Ele quer tudo e isso não é possível", disse Mattos. "Ele sabe tudo, mas quer demais para contar."
O depoimento de duas testemunhas, em sessão secreta da comissão no início da madrugada, convenceu todos os deputados da importância de decretar a prisão do advogado. Novas prisões deverão ser determinadas. "A CPI não vai ser enganada, que ninguém se iluda; nós viemos para cá muito bem preparados e conhecemos o assunto", advertiu Magno Malta.
Antes de ser algemado e preso, Mathias foi submetido a um interrogatório de 11 horas. No início, ele afirmou aos parlamentares que não tem ligações com o narcotráfico. Garantiu, ainda, que não defendia traficantes em ações judiciais. Mas a A CPI levantou cópias de processos em que ele aparece como patrono de acusados de comércio de drogas. O acusado admitiu, então, que faz a defesa de "uns 20 traficantes." A acareação com os assaltantes Jorge Meres e Gilmar Leite Siqueira foi o momento de maior constrangimento para o advogado. Sentado entre os dois acusadores, o advogado foi chamado de safado, corrupto e bandido.
Meres disse que Mathias pagou R$ 50 mil a policiais da 37ª Delegacia de São Paulo (Campo Limpo) para soltá-lo - o ladrão havia sido preso com uma carga de cigarros roubados. Ainda segundo Meres, o escritório da Ponto Zero Veículos, em Campinas, frequentado diariamente por Mathias, pertencia ao empresário Paulo César Farias, morto em junho de 1996. O advogado rebateu, afirmando que o estabelecimento pertence a Sozza.
Gilmar Leite acusou o advogado de promover acertos com policiais de Campinas para libertar assaltantes e traficantes. "Jamais, em tempo algum", defendeu-se Mathias. "Assuma mano, para mim você é o pior da quadrilha", insistiu Leite. "Você está sendo orquestrado, foi ensaiado para me acusar", disse o advogado. "Você é safado, fica aí dando uma de santinho e de bobo, se manca meu", disse o assaltante." O outro acusador, Meres, emendou: "Você é mais bandido que os outros."
À saída do fórum, o deputado Moroni Torgan disse que as testemunhas "foram muito firmes na acusação de que Mathias fazia acordos com policiais corruptos, de que ele participava, de que ele até comia dinheiro da quadrilha". Segundo Torgan, "acusações desse nível foram rebatidas de forma até infantil" O parlamentar ressaltou que Mathias era "o homem da organização que tinha o papel de liberar o pessoal detido, os ladrões e traficantes que eram capturados pela polícia." Segundo a CPI, antes que os integrantes do bando fossem autuados em flagrante pela polícia, o advogado era chamado para fazer o acerto.
HABEAS CORPUS - Hoje mesmo, o advogado Salvador Scarpelli decidiu entrar com habeas corpus em favor de Mathias. Ele vai pleitear primeiro a concessão do benefício de prisão domiciliar para o acusado. Para Scarpelli, a CPI age "como um tribunal de exceção." A OAB-Campinas criticou os trabalhos da comissão parlamentar, sustentando que os deputados promovem "apenas um show" mas não fazem investigações. "Fico surpreso", reagiu Pompeo de Mattos. "Quando cassamos o Hildebrando Pascoal fiquei contente de ver o Congresso cortando da própria carne." Para o sub-relator da CPI, a OAB deveria abrir processo administrativo para "verificar a conduta ética de Arthur Mathias."


