Belfast, Irlanda do Norte, 17 (AE-AP) - O Exército Republicano Irlandês (IRA) aceitou hoje (17) designar um representante para debater o desarmamento junto a uma comissão internacional. A decisão do grupo católico radical - um fato apontado como fundamental para a consolidação da paz na Irlanda do norte - atende a uma exigência do Partido Unionista do Ulster (UUT), protestante e a maior agremiação política do território, para a formação de um governo autônomo, com a participação do Sinn Fein - braço político do IRA.
Em documento oficial divulgado na capital norte-irlandesa, a organização paramilitar católica afirma: "O IRA está comprometido de maneira inequívoca com a busca da liberdade, da justiça e da paz no Ulster. Entende que o Acordo da Sexta-Feira Santa (10 de abril de 1998, entre protestantes e católicos) é um significativo progresso e acredita que sua plena aplicação contribuirá para a conquista de uma paz duradoura. Apoia a linha seguida pelo Sinn Fein. Deseja melhorar o processo de paz e, por tanto, quando as instituições, criadas pelo Acordo da Sexta-Feira Santa, começarem a funcionar, a direção (do IRA) nomeará um representante para debater o desarmamento com o general John de Chastelain e com a comissão internacional independente."
Em outras palavras, o IRA compromete-se a participar da conferência de desarmamento (que reunirá também dirigentes de grupos paramilitares protestantes ) depois que membros do Sinn Feinn assumirem pelo menos dois ministérios no futuro governo norte-irlandês.
A declaração está assinada por P. ONeil, nome usado pelo grupo extremista católico apenas para assinar declarações importantes.
Gerry Adams, líder do Sinn Fein, afirmou que o IRA demonstrou coragem, disciplina e paciência. "Isso apesar das dificuldades que caracterizam o processo e apesar do fracasso da aplicação dos termos do acordo."
A posição do IRA é apontada como vitória do ex-senador americano George Mitchell, que reuniu as partes em Belfast para retomar o processo de paz, estagnado há quase um ano. Os protestantes, particularmente David Trimble, líder do UUP, recusavam-se a aplicar os termos do acordo sem desarmamento total dos grupos paramilitares.
Como membro do maior partido político da Irlanda do Norte, caberá a Trimble chefiar o governo autônomo, depois da assinatura do novo acordo, patrocinado por Grã-Bretanha, República da Irlanda e Estados Unidos. O líder protestantes acolheu satisfatoriamente a declaração do IRA. Mas deverá submetê-la ao congresso do UUT, marcado para 27 de novembro.
A posição do IRA é definida pelos analistas políticos locais como fato histórico. Há 30 anos, o grupo extremista vinha lutando para expulsar os britânicos do território e anexá-lo à católica República da Irlanda.
Trimble, um moderado dentro do UUT, terá de convencer a ala radical do partido a aceitar a nova posição do IRA. Os radicais só admitem a formação de um governo autônomo na província depois do desarmamento.
Londres, Dublin e Washington aplaudiram a decisão do IRA. O ministro britânico para a Irlanda do Norte, Peter Mandelson, classificou a declaração de "passo muito significativo" e exortou os partidos (protestantes e católicos) a formar logo um governo.

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