Washington, 17 (AE) - Nesta década, os Estados Unidos celebraram a derrota do comunismo na Europa, lideraram tropas internacionais no Iraque e no Kosovo, e ajudaram a economia mundial a se recuperar da crise financeira desencadeada pela ásia em 1997. Mas segundo James Mackey, um especialista em segurança nacional, a única superpotência do planeta nunca esteve tão vulnerável.
"Pela primeira vez na história, essa nação poderá ser atacada e as Forças Armadas dos Estados Unidos não poderão defendê-la", disse Mackey, num seminário sobre terrorismo cibernético. Durante a Guerra Fria, lembrou, bastava contar os navios, aviões e mísseis da União Soviética para medir a força do adversário e preparar uma boa defesa.
Hoje, acrescentou, qualquer adolescente munido de um computador pode cruzar fronteiras sem ser visto, atacar o Pentágono, e desaparecer sem deixar rastro.
Mackey falou em nome do Centro de Proteção de Infra-estrutura Nacional (NIPC, em inglês). Trata-se de uma unidade do FBI (Federal Bureau of Investigations), criada em fevereiro passado por determinação do presidente dos EUA, Bill Clinton. O objetivo desse centro é coordenar ações de diferentes agências governamentais e do setor privado, para impedir ou pelo menos detectar rapidamente ataques cibernéticos contra as principais instalações do país: telecomunicações, energia e bancos, entre outros.
Atualmente, o NIPC está investigando 800 casos. Somente os computadores do Departamento de Defesa dos EUA, disse Mackey, foram atacados 250 mil vezes em um ano. Um dos casos que o FBI conseguiu resolver rapidamente, mas que deixou em evidência a gravidade do problema, foi o Solar Sunrise.
Mackey mostrou um vídeo, que o FBI acaba de produzir, sobre o caso que começou em fevereiro de 1998. No exato momento em que os Estados Unidos estavam se preparando para enviar tropas ao Iraque, seu sistema militar foi atacado. Tudo indicava que era uma ofensiva do governo iraquiano ou uma sofisticada manobra de um espião, com base nos Emirados árabes.
Um mês depois os culpados foram descobertos: dois adolescentes de San Francisco, que recebiam instruções de um hacker de 18 anos em Israel. Uma simples brincadeira de crianças. "O problema é que hoje não sabemos quem são nossos inimigos, nem onde estão", disse Mackey.
Isso significa que existem vários impedimentos legais para agir. O governo não pode mobilizar a CIA (Agência Central de Inteligência), se não tiver certeza de que se trata de um espião estrangeiro. Existem leis que protegem os direitos e a privacidade de cidadãos norte-americanos - especialmente no caso de menores, como os responsáveis pelo ataque ao Pentágono.
Mas o que está em jogo não é apenas a segurança militar. A economia norte-americana, que deve seu crescimento dos últimos anos à incorporação de novas tecnologias, também está vulnerável.
Como exemplo, Mackey citou artigos da imprensa chinesa, sobre a vulnerabilidade da economia norte-americana, que é cada vez mais movida eletronicamente, a ataques cibernéticos a bancos e sistemas de telecomunicações. Mas o setor privado dos EUA, segundo ele, demorou em entender a dimensão dessa nova ameaça - assim como levou anos para levar a sério o "bug do milênio".
O "bug" é um problema de programação: computadores mais antigos usam dois dígitos para identificar datas. No próximo dia 31 de janeiro, começará o ano "00". Mas isso pode ser interpretado como 1900 ou 2000.
Ou seja, uma máquina resolverá se um velho sofrendo do coração, será levado a uma incubadora (para recém-nascidos) ou a uma Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) para centenários.
Até agora, disse Mackey, o governo norte-americano investiu US$ 9 bilhões para reprogramar seus computadores e "somente um importante banco de Nova York gastou US$ 900 milhões". Mas o "bug" deixou em evidência a fragilidade do sistema: para resolver o problema os EUA tiveram que alterar suas leis de imigração e permitir a entrada de centenas de especialistas em computação do exterior. Faltava mão-de- obra nacional.
O temor do governo é que os hackers aproveitem a passagem do ano para ensaiar seus ataques - que poderão ser confundidos com problemas gerados pelo "bug" e, portanto, levarão mais tempo para ser identificados.





