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quarta-feira, 17 de novembro de 1999
Por Vladimir Goitia 
São Paulo, 17 (AE) - O ingresso da China na Organização Mundial do Comércio (OMC) não será tão fácil e rápido como os dirigentes chineses pretendem e como os Estados Unidos sonham. Entrar na OMC como membro pleno não apenas exigirá da China uma série de reformas para amortecer os efeitos da abertura na economia do país e na população como a aceleração de outras, iniciadas em 1978.
A China tem de resolver, por exemplo, problemas internos como os altos subsídios concedidos ao seu setor agrícola, o hermetismo de seu sistema financeiro, a ausência de um marco legal e apropriado na área de propriedade intelectual, o protecionismo do seu mercado, a manutenção ou não de indústrias públicas hoje à beira da falência e a falta de transparência contábil.
Para ser aceita definitivamente na organização que rege o comércio mundial, a China terá também de negociar com praticamente todos os países que fazem parte da OMC. Até agora, há negociações pendentes com 28 países e com a União Européia. O governo chinês concluiu essas negociações bilaterais apenas com 13 dos 134 países membros da OMC, entre eles os EUA, Japão e Austrália. Com o Brasil, União Européia, Canadá, Noruega e Suíça estão ainda pendentes.
Analistas acreditam que o ingresso da China na OMC deve incrementar em pelo menos 3 pontos percentuais o seu PIB (Produto Interno Bruto), o que equivaleria hoje a US$ 30 bilhões. Deve ainda criar cerca de 10 milhões de empregos e quase dobrar o volume de seu comércio exterior, subindo para US$ 600 bilhões já no ano 2005.
Mas um aspecto precisa ser considerado: o impacto da abertura chinesa sobre a população de 1,2 bilhão de habitantes, dos quais apenas 400 milhões vivem nas grandes cidades, apinhadas de imigrantes rurais que sequer fazem parte das estatísticas e que fugiram da miséria do campo para enfrentar a pobreza, o desprezo e o preconceito.
O fechamento de indústrias obsoletas e quase quebradas, por exemplo, elevaria o contingente dos quase 20 milhões de desocupados hoje no país. Estimativas não oficiais dão conta de que, com isso, o número de desempregados chegaria 30 milhões, embora o governo admita que hoje existem apenas 12 milhões de desempregados. Alguns especialistas acreditam que a China receberia US$ 100 bilhões em investimentos estrangeiros diretos já no ano 2005, o que alavancaria as suas exportações.
Os mais beneficiados seriam os setores têxtil, vestuário, calçados e brinquedos, gerando, inclusive, cerca de 5,5 milhões de empregos. Outra área que pode beneficiar-se é a de serviços, a qual poderia gerar mais 2,7 milhões de empregos até 2007. Atualmente, esse setor representa apenas 36% do PIB chinês, a metade do que representa nos países industrializados e ainda inferior à media de 45% dos países em desenvolvimento.
Mas as boas notícias para os chineses param por aí. Setores como o financeiro, de seguros, automotivo, químicos e farmacêutico serão os mais afetados. O acordo com os EUA prevê a abertura para esses mercados. Somente o setor automobilístico deve perder quase 500 mil empregos, ou 15% de sua força de trabalho. Na agricultura, essa perda é estimada em 9,7 milhões de postos de trabalho por causa de produtos que entrarão ao mercado chinês com preços 30% mais baratos.
Embora o ingresso da China na OMC possa propiciar um crescimento substancial no comércio mundial - dados preliminares mostram cifras de um incremento de pouco mais de US$ 20 bilhões nas exportações mundiais e de US$ 3,5 bilhões nas dos Estados Unidos -, os agricultores chineses perderiam US$ 665 milhões em investimentos por ano. A China terá também de respeitar o Acordo Antidumping da OMC.


