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quarta-feira, 17 de novembro de 1999
Por Fabiana Gitsio 
São Paulo, 17 (AE) - Cerca de 2 mil pessoas, entre sem-teto, ameaçados de despejo, moradores de cortiço e invasores de prédios, foram hoje ao Palácio dos Bandeirantes pressionar o governador Mário Covas (PSDB). Os manifestantes, da capital e de outros municípios, reuniram-se logo cedo na Praça Afrânio de Oliveira, próximo da Ponte Cidade Jardim. Por volta das 11 horas
seguiram para o palácio em passeata. "Vamos chacoalhar o governador", prometia Evanisa Rodrigues, coordenadora da União dos Movimentos de Moradia (UMM), que encabeçava a passeata.
Embora a pauta de pedidos abordasse também os problemas de quem tem casa - saúde, educação e segurança - os manifestantes reivindicaram principalmente uma política pública para a habitação baseada na iniciativa popular, a adoção do orçamento participativo e a criação de um conselho e de um fundo que garanta os recursos necessários à construção de moradias populares. Eles esperam obter 150 mil assinaturas para um projeto de lei com esses quatro pontos, que possa ser apreciado pela Assembléia Legislativa até julho.
Uma comissão de manifestantes foi recebida pelo chefe da Casa Civil, Celino Cardoso. Os sem-teto reclamaram sobretudo da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), que consideram pouco comprometida com programas de habitação. "Apesar dos recursos, a CDHU é tímida e limitada na sua atuação", afirmou Evanisa. Os sem-teto disseram que nunca são recebidos pelo presidente da companhia, Goro Hama. José Albino de Melo, da direção estadual da Central de Movimentos Populares, foi o único a falar com Covas.
Saiu da reunião com a promessa de que será recebido na próxima semana. "Se ele não der a devida atenção ao problema, as invasões vão continuar". A central anunciou o lançamento de uma campanha para que não haja famílias sem-teto até o Natal. Covas, que se comprometeu a ler com atenção as reivindicações, garantiu que "o governo não vai prestigiar invasões". Para ele
existem muitas obras na área de habitação. "Não podemos resolver todos os problemas", afirmou. O governador respondeu às críticas sobre a CDHU. "Tímida? Nunca vi a CDHU construir tanta casa". Também classificou de "conversa" as reclamações de que os sem-teto não são recebidos.
A imensa maioria que ficou fora do palácio, sob o sol - muitos idosos e crianças, exaustos pela caminhada -, reclamou por não ter tido acesso aos bebedouros do prédio. Algumas pessoas passaram mal. Clélia Maria Pereira, de 52 anos, que estava com a neta Isabela Vitória Gonçalves, de 1 ano e 6 meses, aguentou firme. Em agosto
ela e a neta - abandonada pela mãe - invadiram, com outras 90 famílias, o prédio de uma agência do antigo Banco Nacional, na Rua Líbero Badaró. Clélia não trabalha desde 1995, ano em que perdeu o marido e o emprego. "Pela minha idade, só recebo não". Trânsito - Às 15 horas, foi liberada a circulação de veículos no trecho em frente do palácio. O tráfego esteve complicado nas Avenidas Cidade Jardim, Tapurás e Oscar Americano e houve lentidão na Marginal Tietê e nas Avenidas Eusébio Matoso e Rebouças, rotas para quem se dirigia ao centro e queria fugir da passeata. Ao meio-dia, o congestionamento na cidade chegava a 72 quilômetros. A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) atribuiu o índice ao conjunto de protestos - além do promovido pelos sem-teto, houve um de estudantes e outro de perueiros.


