São Paulo, 17 (AE) - O despachante José William Lacerda, de 58 anos, foi preso hoje em sua residência em Perdizes, na zona oeste de São Paulo, pelos promotores do Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco) e pelo delegado Wagner Giudice, às 6 horas. Ele é acusado de pagar propina a funcionários do Departamento Estadual de Trânsito (Detran) para o desbloqueio de multas e do Imposto sobre Propriedade de Veículos Automotores (IPVA).
Hoje, o "Jornal da Tarde" revelou que é possível fazer o desbloqueio pagando "caixinha" para funcionários do órgão, por meio de despachantes. Desta forma, os motoristas conseguem licenciar e transferir os seus carros sem quitar multas e impostos atrasados, num processo totalmente ilegal. Em seu depoimento à polícia e aos promotores, Lacerda contou como funciona o esquema de corrupção no Detran. De acordo com ele, paga-se propina até para tirar uma fotocópia autenticada. O Gaeco chegou a Lacerda depois de uma investigação feita por um agente infiltrado em outubro. Péssimo estado - Movimento fraco e funcionários tensos formavam o clima do Detran paulista hoje, dia em que o "JT" revelou o esquema de corrupção no órgão. A reportagem mostrou como conseguiu regularizar dois veículos em péssimo estado - uma Kombi ano 82 e um Opala 76 -, cujos impostos atrasados e multas somavam R$ 2.245,00, fazendo pagamentos que, segundo despachantes, seriam entregues a funcionários do Detran.
O processo, totalmente irregular, para transferência e licenciamento dos carros custou apenas R$ 450,00. Incluiu o desbloqueio das multas e dos impostos atrasados e o reconhecimento de firma "frio" do antigo proprietário num cartório que faria parte do esquema. O atestado de boa conservação de um dos veículos, a Kombi, também não foi entregue - apesar dela não contar sequer com o motor. A regularização dos carros foi feita na Divisão de Registro e Licenciamento de Veículos (Dili) do Detran. Para legalizar a perua, o escritório Grillo levou apenas três dias úteis.
O outro despachante utilizado pela reportagem do jornal, Marco Antônio Comite, contou que Corregedoria do Detran e delegados recebem propina para ignorar as irregularidades. Comite é marronzinho da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) e faz "bico" como despachante. Sem surpresa - O diretor do órgão, José Francisco Leigo, que assumiu o cargo em fevereiro, admitiu ao "JT" que licenciamento e transferências podem ser fraudados e informou que um inquérito na 2.ª Delegacia de Crimes de Trânsito (DCT) do órgão apura se a transferência de 9 mil carros, do início do ano até outubro, ocorreram de forma irregular. Segundo ele, os carros licenciados e transferidos pela reportagem não causaram surpresa. Leigo afirmou que já seis funcionários haviam sido afastados por suspeita de irregularidades.
O Ministério Público vem investigando o esquema de corrupção desde outubro. Um agente do Grupo de Atuação Especial e Repressão a Crime Organizado (Gaeco), infiltrado na Dili, constatou as denúncias, o que causou a abertura de uma investigação sigilosa. O agente descobriu, durante 10 dias, alguns despachantes que mandam em determinadas áreas, funcionários-chave e pagamento de propina para "agilização" do serviço.





