Rio, 17 (AE) - O bispo de Irecê, dom João Messi, de 65 anos, foi o escolhido pelo Vaticano para assumir a Diocese de Volta Redonda, no sul do Estado, no lugar de dom Wadyr Calheiros
de 76, que pediu aposentadoria. "A escolha foi muito boa e, certamente ele fará um belo trabalho", afirmou Calheiros, que ficou conhecido nacionalmente por sua defesa em favor de presos políticos durante a ditadura militar.
Messi é considerado progressista e faz parte da Ordem dos Servos de Maria, a mesma a que pertencem Clodovis Boff, irmão do teólogo Leonardo Boff, um dos mentores da Teoria da Libertação, e Dom Moacyr Grechi, arcebispo de Porto Velho (RO), que foi ameaçado de morte por denunciar o esquema comandado pelo ex-deputado Hidelbrando Paschoal. A intenção de Calheiros era entregar o cargo no dia 8 de dezembro, quando completa 33 anos à frente da Diocese de Volta Redonda, mas, segundo ele, sua saída só deverá acontecer no início do próximo ano.
A decisão de se afastar da diocese foi pessoal. "Depois dos anos, a gente sente o cansaço no próprio corpo", justificou. Ao contrário de seu antecessor, dom Messi não gosta muito de falar sobre temas doutrinários polêmicos como o fim do celibato e o divórcio. "Essas questões não devem ser comentadas pelos bispos", disse. Messi, porém, tem a mesma opinião quando o assunto é a política brasileira. "O governo Fernando Henrique não fez a opção pelos pobres", afirmou. Calheiros acredita que o presidente acabou virando "refém" do PFL, definido por ele como o "partido das elites brasileiras".
Pobres - O bispo de Volta Redonda ainda mantém suas língua afiada. "É brincadeira a gente ver o presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), que sempre defendeu o sistema que esta aí, sair em defesa dos mais pobres", criticou. "Deve ser por causa das eleições próximas". Calheiros aproveita para criticar o governador de Minas Gerais, Itamar Franco, do qual acusa de não ter "moral" para falar sobre a privatização de Furnas. "Ele deu de mão beijada a CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) e, agora, nossa população sofre com o aumento da criminalidade, o desemprego e o índice de suicídio na cidade", afirmou.
Segundo o bispo, dos 30 mil operários que trabalhavam na companhia antes da privatização, só restam 10 mil. "E a intenção é reduzir para 5 mil", disse. Dom Messi também é ardoroso crítico da forma como estão sendo feitas as privatizações no País. "Elas não passam de tapeação, porque o povo está ficando cada vez mais empobrecido e os ricos, mais ricos", acredita. Ele conhece seu antecessor há anos. "Fui na ordenação de padre dele", contou o novo bispo de Volta Redonda. De acordo com dom Waldyr Calheiros, seu substituto é um homem "muito humilde e bom".
O rebanho que Messi herdará é muito maior do que o que ele cuida na região de Irecê. São 1 milhão de habitantes, espalhados por 12 municípios, contra 400 mil "almas" atendidas atualmente pelo bispo na pequena cidade baiana. A escolha do sucessor de Calheiros passou pelo crivo do cardeal Dom Eugênio Salles, arcebispo do Rio de Janeiro, que tem grande prestígio no Vaticano. As claras divergências políticas na orientação pastoral entre dom Eugênio e Calheiros, porém, não foram empecilhos para escolha de Messi. Calheiros garante que sequer ofereceu a lista tríplice com os nomes dos bispos que gostaria em seu lugar. "Deixei que a escolha fosse livre".

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