Buritis, MG, 17 (AE) - Agentes do Comando de Operações Táticas (COT), da Polícia Federal (PF), foram acionados hoje para fazer a segurança da Fazenda Córrego da Ponte, da família do presidente Fernando Henrique Cardoso, depois que um grupo de sem-terra ameaçou ocupar a propriedade para pressionar o governo a liberar crédito de plantio. Destacados para operações especiais, os policiais são os mesmos que fizeram a escolta do ex-deputado Hidelbrando Pascoal (PFL-AC) quando ele esteve no Acre para depor à Justiça no processo que apura seu envolvimento no tráfico de drogas.
A chegada dos seis agentes do COT, ainda de madrugada, não foi percebida pelos manifestantes. Mas, pela manhã, quando eles entrarem na fazenda, os sem-terra acampados em frente à porteira reagiram gritando palavras de ordem e vaiando. A movimentação de policiais federais não diminuiu o ânimo dos manifestantes, que ainda mantinham até hoje à tarde a intenção de promover a ocupação da fazenda, caso o governo federal não garantisse a liberação de R$ 3 milhões, segundo eles em atraso, para a compra de sementes e adubo para plantio em 22 assentamentos e dois acampamentos de cinco municípios próximos a Buritis. Entrave - Até o final da tarde não havia ocorrido o esperado encontro entre técnicos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) com os líderes do movimento. Um dos coordenadores do grupo dos sem-terra, Lucídio Ravanelo, disse que o Banco Central recentemente baixou resolução obrigando a liberação conjunta dos dois créditos, o de custeio e o de investimento. Os trabalhadores rurais entregaram apenas o projeto de custeio ao BB, atendendo à regra anterior que previa a distinção dos financiamentos.
"Agora, não haverá mais tempo de elaborar também o projeto de investimento e, por isso, queremos a desvinculação dos créditos", disse Ravanelo. Segundo ele, o crédito de custeio é de R$ 2 mil por família e, o de investimento, de R$ 7 5 mil. Os sem-terra dizem que o plantio das roças deve ocorrer até o dia 30, sob risco de perda da produção. "Estamos usando nosso último cartucho e não saímos daqui sem solução", afirmou o coordenador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) do Distrito Federal, Vilson Sena de Macedo, que se deslocou, hoje, de Brasília para o acampamento.
"Se não houver solução, vamos ocupar, com a Polícia Federal e tudo", ameaçou, dando um prazo para o governo até o final da noite de hoje. Macedo disse que, antes da decisão de acampar em frente à fazenda, os sem-terra ocuparam o Banco do Brasil e tentaram, segundo ele, sem sucesso, negociar com o Incra. "Resolvemos pressionar aqui porque é o Fernando Henrique quem manda", disse. "Já o Jungmann vive mentindo, dizendo que tem liberado crédito", acusou Macedo, referindo-se ao ministro de Política Fundiária, Raul Jungmann.
De acordo com integrante do MST, a coordenação nacional e os principais líderes do movimento sabem das manifestações, como a montada na frente da fazenda do presidente. "As manifestações ocorrem em todos os Estados", ressaltou. Rotina - Enquanto não chegava a solução, as famílias tentavam manter uma rotina, sob as lonas aparadas por galhos e já desgastadas pela chuva e vento. Adultos e crianças usavam um rio próximo da porteira da fazenda para banhar-se e escovar os dentes. Na noite de terça-feira foi promovido um arrasta-pé, um animado forró, com sanfona e violão. Nas barracas, disputava-se o espaço, inclusive com um filhote de cobra, descoberto embaixo de um dos colchões. O único ônibus dos sem-terra também servia de abrigo para alguns.

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