PUBLICAÇÃO
terça-feira, 16 de novembro de 1999
Por Fausto Macedo 
Campinas, SP, 16 (AE) - O homem magro e calvo, óculos de aros finos e jeito de professor chegou em Campinas (SP) na tarde de segunda-feira. Discreto, dirigiu-se para o hotel onde a CPI do Narcotráfico montou um QG de operações para investigar as raízes do crime organizado na cidade. Com a fama de xerife incorruptível, o delegado Paulo Lacerda, da Polícia Federal, veio para dar assessoria técnica aos parlamentares. Lacerda, hoje aposentado, conduziu o inquérito que desmascarou o esquema do empresário Paulo César Farias e deu base para o impeachment do presidente Fernando Collor, em outubro de 1992. Hoje, o delegado atua no gabinete do senador Romeu Tuma (PFL-SP) e, toda vez que uma comissão de inquérito depara com um emaranhado de contas bancárias e registros tributários, ele é convocado.
A missão de Lacerda é promover o cruzamento de dados, confrontar informações e decifrar anotações em código - estratégia habitualmente empregada no intrincado mercado de lavagem de dinheiro do tráfico e da corrupção. A CPI do narcotráfico suspeita que o esquema PC ainda mantém laços em Campinas, agora abrigando operações ilícitas do empresário Willian Sozza, apontado como um dos principais dirigentes da organização criminosa na cidade, com ramificações em 14 estados. "Os indícios são muito fortes nesse sentido", avalia o deputado Pompeo de Mattos (PDT-RS), sub-relator da comissão.
Por meio desse esquema, Sozza estaria lavando recursos captados em negócios com entorpecentes e venda de caminhões e cargas roubadas no Maranhão e no Acre. Há pistas de que um irmão de PC, o deputado Augusto Farias (PPB-AL) teria vinculações com a turma de Campinas, segundo a CPI.
Quando investigou as atividades de PC, em Campinas, o delegado Lacerda identificou a atuação de doleiros estabelecidos na cidade e uma empresa, a New York representações, de um tal Ed Wanger Generoso. Na época, a PF constatou movimentação intensa de recursos no câmbio paralelo que atuava como se fosse uma instituição financeira. Cheques do esquema transitavam por contas fantasmas abertas pelo grupo. A CPI do Narcotráfico suspeita que o elo entre o esquema PC e Willian Sozza seria o empresário Alexandre Negrão.
Quando PC reinava como tesoureiro e braço direito de Fernando Collor, Negrão pagou US$ 1,5 milhão para que fossem liberados recursos devidos pelo governo à empresa dele, o Instituto Químico de Campinas. Negrão alegou que havia sido extorquido pelo esquema mas, segundo o delegado Lacerda, o empresário também abriu uma conta fantasma em nome de José Antônio Pavino. Negrão nega as acusações e se pôs à disposição da CPI. Ele admitiu ter feito doações em dinheiro para a campanha do vereador Roberto Mingone (PFL), de Campinas, também apontado pela CPI como supostamente envolvido com Sozza. Negrão negou ter relacionamento com Sozza.


