Grozny, Rússia, 16 (AE-AP) - A aviação e a artilharia russas apertaram o cerco hoje (16) contra duas importantes cidades chechenas, forçando milhares de pessoas a deixar suas casas, ao mesmo tempo em que o Kremlin e a chancelaria do país continuavam o contra-ataque à pressão internacional para o fim dos bombardeios.
As incursões aéreas ao sul de Grozny impedem a fuga de milhares de pessoas para a república russa da Ingushétia, onde já se encontram mais de 210 mil chechenos, a maioria em acampamentos precários. Há outras 250 mil pessoas que deixaram as cidades sob ataque e buscaram abrigo nas montanhas ou vilarejos. Mesmo assim, cerca de 1.000 chechenos conseguiram atravessar a fronteira hoje.
Os russos procuram bloquear a Rodovia Transcaucasiana, que liga Baku, no Azerbaijão, a Rostov, no sul da Rússia, e divide a Chechênia em duas partes (norte e sul). A rodovia é a única saída para chechenos em fuga dos ataques aéreos, que têm feito milhares de vítimas civis. Segundo as autoridades chechenas, mais de 4 mil pessoas morreram - a maioria civis - nos bombardeios, iniciados no começo de outubro.
As tropas russas cercaram as cidades de Achkoi-Martan e Argun
que ficam num raio de 15 a 25 quilômetros de Grozny. Fontes chechenas disseram que os militares deram um ultimato aos moradores para que expulsassem os rebeldes. Caso contrário, seriam alvo de pesados bombardeios. O alto comandante russo na região, general Vladimir Shamanov, negou que seus homens tenham feito tal advertência.
Ao redor da capital chechena, as bombas continuam caindo por toda a parte. Grozny está sem eletricidade e gás e os hospitais foram transferidos para a vila de Atari Atagi, 20 quilômetros ao sul. Vários altos oficiais russos continuam negando que a intenção das Forças Armadas seja tomar a cidade, pois isso implicaria elevadas baixas entre a população e os militares.
Na Guerra da Chechênia (1994-1996), a invasão de Grozny provocou a morte de centenas de chechenos e soldados russos e terminou com a retirada humilhante da Rússia. Desde então, as autoridades locais definem a república como independente, mas Moscou não reconhece esse status. Pelo acordo que pôs fim à guerra, a questão ficou para ser decidida em 2001.
Em outubro, porém, a Rússia voltou a enviar tropas para a Chechênia, depois que rebeldes islâmicos ali alojados invadiram a república russa do Daguestão - de onde foram expulsos em agosto e setembro. Moscou também os responsabiliza pelos atentados que mataram cerca de 300 pessoas no país, nessa mesma época.
Em Londres, o chanceler russo, Igor Ivanov, acusou os governos ocidentais de hipocrisia por criticarem a ação de seu país na Chechênia e questionou as intenções da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) na ásia Central. Ele reiterou, em um artigo no diário britânico The Financial Times, que a "Rússia está lutando contra o terrorismo internacional".
Esses mesmos argumentos devem ser empregados pelo presidente Boris Yeltsin na cúpula da Organização para Cooperação e Segurança na Europa (OSCE), de quinta a sexta-feira, em Istambul. O Kremlin informou hoje que Yeltsin manterá uma reunião à parte com seu colega americano, Bill Clinton. A questão chechena certamente será um dos temas principais do encontro dos presidentes e chefes de governo europeus.
A agência russa Interfax assinalou hoje que o magnata Boris Berezovski - considerado a eminência parda do Kremlin - propôs um plano de paz para pôr fim à ofensiva no Cáucaso, para onde pretende viajar.





