Havana, 16 (AE-AP) - A fragmentada dissidência cubana saiu vitoriosa da cúpula ibero-americana ao chamar a atenção de uma maneira inusual, mas os próprios opositores pensam que isso poderá acarretar uma situação ainda mais difícil na ilha comunista.
Vários dirigentes de grupos clandestinos de direitos humanos e de reconciliação se reuniram com o chefe do governo espanhol, José Maria Aznar, com o presidente de Portugal, Jorge Sampaio, e com os chanceleres do México, Panamá e Nicarágua.
Essas reuniões incomodaram o presidente Fidel Castro, mas sua atitude foi de fazer vista grossa e destacar a importância do encontro a fim de elevar o perfil internacional de Cuba.
"Nunca tivemos oportunidade semelhante - entrevistarmos com líderes democráticos e dizer-lhes o quão restrito é nosso espaço político", afirmou Elizardo Sánchez, líder da Comissão de Direitos Humanos e Reconciliação Nacional em Cuba, sem respaldo jurídico.
Até há algumas semanas, Sanchéz e outros dirigentes opositores lutavam no anonimato e temendo, segundo disseram, ser reprimidos pelo governo.
Os ativistas denunciaram na véspera da cúpula a detenção de quase uma centena de adversários políticos de Fidel, mas o governo garantiu que só deteve 15 pessoas para serem investigadas por suposta tentativa de "sabotar a cúpula".
O governo, como nunca fizera antes, fustigou com dureza o que chamou de "grupelhos" pagos pelo governo dos Estados Unidos e por cubanos exilados em Miami para torpedear a cúpula.
Mesmo assim, os ativistas anticastristas realizaram seus encontros, ao mesmo tempo em que diversos líderes faziam discursos pujantes enaltecendo a democracia e o respeito aos direitos humanos, assuntos delicados em Cuba.
O rei Juan Carlos, da Espanha, disse pessoalmente a Fidel numa festa de gala durante a noite que "só com plena democracia, plena garantia das liberdades e escrupuloso respeito aos direitos humanos podem nossos povos enfrentar com êxito os desafios do século 21".
O chanceler argentino, Guido Di Tella, foi mais direto ao assinalar que "em Cuba se tem avançado um pouco na abertura econômica, mas no campo político a situação segue igual".
Fidel, de 73 anos, tem sido recriminado por tudo isso em cúpulas anteriores, mas o chefe máximo da revolução cubana tem se mantido firme em sua ideologia socialista e seu sistema unipartidário.
Acredita-se que a dissidência tentará manter o protagonismo que ganhou na cúpula, mas Sánchez afirma que acha difícil que Fidel suavize sua posição em relação a correntes políticas divergentes a seu regime.
"Oxalá eu esteja equivocado, mas penso que eles vão se entrincheirar ainda mais", opinou Sánchez, enquanto que Raúl Rivero, fundador da agência independência Cuba Press, antevê para a dissidência "um clima mais hostil".

mockup