Praga, 16 (AE-AP) - A deles foi a Revolução de Veludo, uma revolta pacífica contra a brutalidade policial que pôs fim a quatro décadas de comunismo com música, risadas e também não com poucas lágrimas. Dez anos depois, existe pouca celebração.
Em 17 de novembro de 1989, manifestantes foram dispersados pela polícia comunista, mas voltaram no dia seguinte, e no outro - em número cada vez maior levando ao colapso do regime marxista em apenas 18 impressionantes dias.
Mas avançando para o presente, pouco ficou daquelas emocionantes duas semanas e meia. Agora dividida nos territórios checo e eslovaco, as duas partes do que foi a Checoslováquia estão livres, mas desiludidas.
O ex-presidente soviético Mikhail Gorbachev e o polonês Lech Walesa, o dirigente trabalhador da construção naval cujo sindicato independente Solidariedade enfraqueceu o regime comunista de seu país antes de sua queda, chegaram hoje (16) para participar do aniversário da Revolução de Veludo. Ainda chegarão o ex-chanceler alemão Helmut Kohl, e a ex-primeira-ministra britânica Margareth Tatcher. Entretanto, pelo menos algum do foco estará concentrado no presente e futuro
ao invés de nos eventos de 10 anos atrás.
Depois de um encontro entre Gorbachev e o presidente checo, Vaclav Havel, o porta-voz de Havel, Ladislav Spacek, disse que os dois discutiram as próximas eleições russas, assim como o plano de Gorbachev de formar um partido social democrata.
E Walesa, em sua reunião com o presidente checo, expressou preocupação com o século vindouro, afirmou Spacek.
"Encontros como esse sempre nos faz lembrar os maravilhosos momentos da história, mas também temos de falar sobre o futuro"
teria dito Walesa, segundo Spacek. "Vejo que o próximo século será muito difícil, porque ninguém sabe do que o mundo precisa depois da Guerra Fria".
Os cinco ex-estadistas - Walesa foi o primeiro presidente da Polônia pós-comunismo - participarão de uma recepção de gala de heróis revolucionários e de uma conferência acadêmica. Concertos de rock nos próximos dias nas capitais checa e eslovaqua tentarão capturar algum do espírito da chamada Revolução de Veludo.
Além disso, nenhum evento público de massa está programado.
Monika Pajerova, uma ex-líder estudantil que mais tarde trabalhou como uma diplomata checa na França, culpa a falta de entusiasmo geral ao sentimento de que a revolução foi maculada pelo que veio a seguir - disputas políticas, escândalos e corrupção.
"A sociedade perdeu a fé na moral porque a política no nosso país é feita sem moral", disse Pajerova, uma das mais proeminentes protagonistas da Revolução de Veludo.
A República Checa é um dos três países do antigo bloco soviético - além da Polônia e Hungria - a se unirem à Otan, e é uma das favoritas a entrar na União Européia.
Com um salário médio de US$ 400 por mês, a maioria dos checos ganha hoje quatro vezes o que ganhava em 1989, e muitos estão ainda melhores.
Mas tanto na República Checa quanto na Eslováquia, dezenas de milhares de pessoas comuns - aposentados, trabalhadores braçais, os desempregados e a grande minoria cigana do país - vivem abaixo do nível de pobreza.
Havel, o propulsor da Revolução de Veludo, ainda está na liderança em Praga. Mas sua popularidade, que já bateu nos 80%, despencou para menos de 50% pela primeira vez este ano entre os checos - não mais pacíficos revolucionários, mas capitalistas querendo alcançar os padrões de prosperidade do Ocidente.
No mês passado, Havel disse que a revolução talvez não tenha sido "a encruzilhada fundamental de nossa história na virada do milênio.
"Talvez estejamos em tal encruzilhada apenas hoje, 10 anos depois, porque apenas agora enfrentamos uma decisão totalmente livre sobre que direção tomar", afirmou.
Vaclav Klaus, primeiro-ministro durante cinco cruciais anos até 1997, afirmou que a maioria dos checos está frustrada por promessas que não foram cumpridas.
"Se há uma palavra que poderia caracterizar os últimos 10 anos desde a revolução esta palavra é impaciência", disse Klaus.
Juntamente com a desilusão vem a nostalgia - os checos, que saíram em massa para derrubar um dos mais repressivos regimes do bloco soviético, passam cada vez mais a venerar o passado.
Os ex-comunistas agora têm 20% de apoio, segundo pesquisas. Cerca de 32% dos checos afirmam que estavam melhor sob a administração comunista e outros 32% acham que tudo continua a mesma coisa.
Apenas 12% aprovam as reformas pós-comunismo que contribuiram para estabilizar a democracia e adotar o livre mercado e 53% afirmam que "algo deu errado no meio do caminho".

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