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terça-feira, 16 de novembro de 1999
Por Uilson Paiva 
São Paulo, 16 (AE) - Cerca de 80 famílias de sem-teto foram retiradas hoje, por ordem da Justiça, de um edifício de sete andares, na Rua do Gasômetro, no Brás, região central de São Paulo. A construção havia sido ocupada em 25 de outubro por integrantes da União dos Movimentos de Moradia (UMM). Os proprietários obtiveram na Justiça a reintegração de posse, executada a partir das 6 horas.
Não houve reação dos sem-teto. Vigiados por 70 soldados da Polícia Militar, viram carregadores contratados pelos proprietários do prédio colocarem seus móveis e pertences em caminhões. Sem saber para onde ir, muitas famílias ficaram na calçada, ao lado de malas, sacolas, camas desmontadas, fogões e brinquedos.
Natural de Ouricuri (PE), o mecânico de automóveis Carlos Francisco dos Santos Sá, 38 anos, está em São Paulo há 3 meses. Veio para fugir da seca, na esperança de conseguir emprego. "Lá tá ruim, seco, não tem água", diz. "Achei que aqui teria futuro." Ao lado dele, o filho de 6 anos, estava deitado na calçada, sobre gavetas, coberto com um lençol. "O menino é doente...", disse Sá, que não consegue acabar a frase e caiu no choro.
A família foi morar na ocupação avisada por um primo. "Vim iludido, sou trabalhador e aqui não tem onde trabalhar", afirmou. A mulher, Helena, falou ríspido: "Eu quero voltar; lá é ruim, mas a gente não sofre desse jeito." Sá concordou. "A gente só quer ir embora, mas não tem dinheiro para a passagem."
Roberto Carlos Rocha, de 31 anos, estava trabalhando de carregador no mercado municipal, a poucas quadras do prédio, quando foi avisado por uma amiga. "Ela disse que minhas coisas estavam na calçada, então saí correndo." Ganha salário mínimo, não tem dinheiro para aluguel. "Você acha que se eu tivesse lugar para morar, estaria aqui?"
Joaquim Soares dos Santos, advogado dos proprietários - Antônio Cenir Pedrosa Cidrão e José Luís da Silva -, disse que nunca houve intenção de negociar o prédio. "A construção estava sendo reformada para ser hotel, quando foi invadida."
No fim da tarde, dois ônibus levaram uma parte dos sem-teto para uma escola desativada na Vila Mafra, zona leste. O prédio é um dos locais cadastrados para uso pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU). Há pelo menos 27 prédios ocupados na capital por movimentos pró-moradia.


