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terça-feira, 16 de novembro de 1999
Por Sônia Cristina Silva Enviada especial 
Buritis, MG, 16 (AE) - Famílias de sem-terra de cinco municípios acamparam, hoje pela manhã, em frente à Fazenda Córrego da Ponte, de 1,3 mil hectares, pertencente à família do presidente Fernando Henrique Cardoso. Os sem-terra estão decididos a permanecer em vigília na frente da porteira da propriedade até que sejam liberados recursos para custeio e investimentos na plantação para vários assentamentos e acampamentos. As famílias dizem que o grupo tem 400 pessoas, mas a Polícia Militar calcula, no máximo, 150. Eles ameaçam com a ocupação da fazenda, caso o governo federal não libere o dinheiro.
Ameaças deste tipo não são novidades para o administrador da fazenda, Wander Gontijo, mas ele também se surpreendeu quando viu as famílias chegarem, em ônibus e caminhão, por volta das 9 horas da manhã. Os sem-terra dizem ter alimentos e condições de ficar no local pelo menos por uma semana. "Ficaremos aqui o tempo necessário e não descartamos a possibilidade de ocupar a fazenda para sensibilizar o governo federal", avisou um dos líderes do grupo, Jorge Augusto Xavier. Segundo ele, 22 assentamentos e dois acampamentos prestes a serem regularizados esperam cerca de R$ 3 milhões em crédito para custeio. São R$ 2 mil por família, para a aquisição de sementes, adubo e outros produtos que garantem o início do plantio.
"Esse dinheiro era para ser liberado até julho, no máximo", afirmou Xavier. De acordo com as famílias, se o plantio não for feito até o dia 30, há riscos de perda da colheita. Cada família também deve receber R$ 1,4 mil de crédito de fomento e alimentação. "Não saímos daqui sem o dinheiro", disse o líder do grupo. "Que eles mandem alguém do governo aqui; alguém para resolver". Os sem-terra vieram dos municípios de Buritis, Arinos, Unaí, Formoso e Cabeceira de Goiás, todos próximos da fazenda. Incra - Jorge Xavier disse que há 15 dias, durante uma ocupação da agência do Banco do Brasil de Buritis, foi firmado um acordo com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para liberação do crédito de custeio. Segundo ele, o superintendente regional do Incra, Josias Julio do Nascimento, chegou a enviar um fax de Brasília para Buritis garantindo que o dinheiro sairia. Agora, de acordo com Xavier, tanto o instituto quanto o Ministério de Política Fundiária, dizem que o governo federal não repassou o orçamento para ações de reforma agrária.
"Eles dizem que o dinheiro está retido nos cofres da União e que não estão liberando o orçamento", contou Xavier. "Dizem que o culpado é o governo central e, por isso, estamos aqui em frente para tentar sensibilizar o presidente". O 28º Batalhão da PM de Minas Gerais mantém 30 homens na pista, próximo à porteria da fazenda. Segundo o capitão Oswaldo Araújo, pelo menos 300 homens podem ser deslocados do batalhão caso se confirme a ameaça de invasão da propriedade. Se houver a ocupação, será necessário que a Justiça conceda a reintegração de posse antes que os policias possam agir para a retirada do sem-terra.
A PM também mantém vigília nos acessos à Buritis porque há a informação da chegada de uma nova leva de sem-terra. O clima, no entanto, não era de conflito até o final da tarde de hoje. A polícia acabou chegando antes dos manifestantes ao local. "Demos azar porque quebrou um dos nossos ônibus", explicou Jorge Xavier. O administrador da fazenda, Wander Gontijo, disse que conhece vários dos líderes envolvidos e não parecia nervoso com a possibilidade de ocupação. "Já ouvi falar de ameaças umas 20 vezes, mas desta vez eles vieram mesmo", comentou.
água - A presença de crianças e até bebês fez com que Gontijo desse dois galões de água para os sem-terra. Prometia dar um pouco de leite, quando amanhecesse. "Vou ver o que dá para fazer com o leito que tiramos para consumo próprio", contou. São produzidos apenas 20 litros diários de leite na Córrego da Ponte, cujo forte é a criação de touro. Também há plantio de soja, milho e café irrigado. Fernando Henrique esteve na fazenda há 20 dias.
Ao saber do acampamento dos manifestantes, não fez nenhum tipo de recomendação fora da rotina, de acordo com Gontijo. São 10 pessoas trabalhando na fazenda e, de acordo com o administrador, o número não foi reforçado. A área só é considerada de segurança nacional quando o presidente está no local. Os sem-terra esperavam, ainda hoje, uma resposta de seus representante em Brasília, que junto a direção nacional do movimento tentavam negociar com o governo. Além de recursos de crédito, a liberação do dinheiro do Fundo de Participação dos Municípios, sem o qual, dizem, os prefeitos não têm condições de apoiar os trabalhadores rurais.


