São Paulo, 16 (AE) - Economistas e empresários criticaram hoje as declarações do presidente Fernando Henrique Cardoso em relação à inflação. Economistas argumentam que o destaque que o presidente deu aos aumentos salariais não corresponde às causas das atuais elevações de preços. Além disso
lembram que o reajuste de tarifas - regulado pelo governo - foi um dos itens que mais pesou nos índices de inflação do varejo. Outra crítica foi em relação às declarações do presidente sobre taxas de juros - área na qual o Comitê de Política Monetária (Copom) tem procurado demonstrar independência de decisão.
Para o economista-chefe do banco Boavista Interatlântico
Paulo Pereira Miguel, as declarações de Fernando Henrique não devem ter efeito sobre os índices de inflação. Em relação aos reajuste salariais, citados como um possível estímulo à volta da inflação pelo presidente, o economista acredita que a discussão está deslocada. "Excluindo algumas categorias específicas como metalúrgicos e bancários, o nível de salário real da economia acumula queda no ano, entre 4% e 5%", afirma Paulo Pereira Miguel, que não vê hoje sinais de que a inflação esteja sendo produzida por excesso de demanda (como poderia acontecer em caso de aumentos salariais reais significativos).
O economista, entretanto, lembra que há um clima de insegurança em relação à inflação nos próximos meses. Os índices deverão cair para abaixo de 0,5% nos últimos meses do ano e no início do ano que vem para que possa ser cumprida a meta de inflação máxima de 8%.
Para o economista de um grande banco nacional, o presidente condenou aumento de salário num momento em que não está havendo aumento da massa salarial. "Vários dos produtos que vêm puxando a inflação, como carne, açúcar ou álcool, não podem ter a demanda reduzida para evitar aumentos de preços porque são gêneros de primeira necessidade", diz o executivo. Outro aspecto negativo das declarações do presidente, afirmou, foi a menção às taxas de juros. "Fernando Henrique até agora vinha tendo uma disciplina em relação às taxas de juros e fazendo poucas declarações neste sentido, porque a política monetária está a cargo do Banco Central".
O economista de um grande banco estrangeiro também não gostou do teor das declarações do presidente, e diz que elas lembraram discursos políticos de governos anteriores.
A recepção às declarações do presidente em Havana não foi melhor entre os empresários. O presidente da Associação Paulista dos Supermercados (Apas), Omar Assaf, disse que "não só os empresários têm que fazer a sua parte, mas também o governo, fazendo as reformas hoje paradas no Congresso".
Assaf também critica a afirmação do presidente em relação aos juros. Fernando Henrique disse que "não é o momento de estar aumentando preços, porque aumentar preços aumenta juros e aumentar juros diminui a taxa de crescimento". Para o presidente da Apas, as taxas de juros na economia não são determinadas "por decreto", mas por condições da política macroeconômica. Assaf lembra que logo após a desvalorização, os supermercados formaram mesas de negociação com fornecedores para tentar evitar repasses, e que a situação é a mesma hoje. "Ninguém vai repassar 1 centavo a mais do que precisa", diz o presidente da Apas. "Mas não há como negar que há aumentos de tarifas públicas, combustíveis e impostos, e que observando as planilhas fica claro que há um limite para segurar o repasse", diz.

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