Por Isabel Braga Atenção editor: Matéria retransmitida com correção no 6º parágrafo
Brasília, 12 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso começa amanhã (13) uma viagem de quatro dias a Havana, capital de Cuba. Fernando Henrique aproveitará a participação na Conferência Ibero-Americana, nos próximos dias 15 e 16, para fazer a primeira visita de um chefe de Estado brasileiro à ilha governada por Fidel Castro há 40 anos. Além dos encontros com Fidel Castro e ministros cubanos, Fernando Henrique fará uma visita guiada ao centro histórico de Havana (Havana Vieja), o conjunto arquitetônico mais preservado do país.
Brasil e Cuba romperam relações diplomáticas em 1964, ano em que o militares tomaram o poder no Brasil e instalaram o período ditatorial. Em 1985, no governo de José Sarney, os dois países reataram laços, mas desde então apenas ministros foram a Cuba. As relações entre os dois países são diversificadas, com troca de experiência e cooperação em áreas como a saúde e modernização do Estado. O Brasil compra vacinas produzidas em Cuba e a Petrobras deverá fazer explorações de petróleo no país.
Segundo o coordenador brasileiro na Conferência Ibero-Americana, embaixador Luiz Augusto de Castro Neves, o governo brasileiro dá muito importância às relações diplomáticas com Cuba. "O Brasil tem buscado contribuir para o estabelecimento de pontes com vistas à reinserção de Cuba no contexto internacional", comentou, numa referência ao embargo econômico dos Estados Unidos imposto aos cubanos desde que Fidel tomou o poder.
Acompanhado da primeira-dama Ruth Cardoso e do chanceler Luiz Felipe Lampreia, o presidente ficará instalado na Casa Palco, oferecida pelo governo cubano. O lugar integra um conjunto de casas construídas em um parque de Havana.
Na segunda-feira (15), Fernando Henrique participará com Fidel da inauguração da Escola Latino Americana de Medicina.
Antes de chegar à ilha, Fernando Henrique participa da VI reunião do Círculo de Montevidéu, em São Domingos, capital da República Dominicana. O grupo foi criado há cerca de um ano e meio pelo ex-presidente do Uruguai Julio Maria Sanguinetti e reúne presidentes, ministros e personalidades do mundo acadêmico da América Latina. Com o apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a reunião serve para debates de temas como a democracia, a governabilidade e o desenvolvimento econômicos nestes países.
AUSÊNCIA - Durante os dois dias da conferência, o presidente brasileiro terá encontros bilaterais de trabalho com o primeiro-ministro da Espanha, José Maria Aznar, com o presidente do México, Ernesto Zedillo. Também está previsto o encontro de Fernando Henrique com o presidente de Portugal, Jorge Sampaio e o primeiro-ministro português, Antonio Guterrez. Da conferência participam 21 países, mas pelo menos cinco chefes de Estado deverão estar ausentes: o presidente do Chile, Eduardo Frei, o presidente da Argentina, Carlos Menem, e os presidentes de El Salvador, Armando Calderón Sol, da Costa Rica, Miguel Rodriguez Echeverria, e da Nicarágua, Arnoldo Alemán.
Eduardo Frei não vai como protesto contra a atitude do juíz espanhol Baltazar Garzón de julgar o ditador chileno, general Augusto Pinochet, em seu país. A Espanha foi a maior incentivadora da criação da conferência ibero-americana. O presidente Menem decidiu não ir ao encontro em solidariedade a Frei, mas também enfrenta protestos internos em seu país com a decisão do juiz Garzón de processar militares argentinos envolvidos em crimes de tortura e morte durante o período de ditadura.
A falta de democracia em Cuba e o grande número de cubanos exilados motivou a não participação dos presidentes dos três países da América Central. O presidente da Costa Rica chegou a mandar uma carta a Fidel Castro condicionando sua participação a encontros com representantes da oposição ao governo cubano. Segundo fontes diplomáticas, como não recebeu resposta, optou por não ir ao encontro.
Segundo Neves, Fernando Henrique participará do evento porque a presença do Brasil está relacionada ao contexto ibero-americano. "O Brasil não considera que o encontro deva ser rotulado por temas estranhos aos temas ibero-americanos", explicou o embaixador. Para ele, a ausência dos cinco presidentes não enfraquece a conferência, porque eles estarão representados por seus chanceleres.
CRISES - O tema da conferência deste ano é "A Ibero-Americana e a situação financeira internacional numa economia globalizada". Os chefes de Estado e de governo debaterão proposta para reformulação da arquitetura financeira mundial. O tema já foi abordado na última cúpula, realizada na cidade do Porto, em Portugal. Nessa cúpula do Porto e em diferentes ocasiões durante suas viagens ao exterior, Fernando Henrique tem defendido teses como a da criação do Banco Central dos bancos centrais e ou a da taxa Tobin (uma taxa a ser cobrada com o objetivo de inibir movimentos especulativos de capital em curto prazo). No último dia do encontro, os chefes de Estado e de Governo assinarão a Declaração de Havana,com as idéias debatidas sobre esse tema. "Não vai se propor mecanismos acabados de controle do fluxo descontrolado de capitais no mercado financeiro internacional", explicou Neves. "Os chefes de Estados propõem caminhos e soluções, mas a conferência não é um fórum de negociações e decisões, mas de concentração política." Além de temas relacionados a problemas ibero-americanos, as relações entre o Mercosul e a União Européia poderão fazer parte de debates paralelos.
COOPERAÇÃO - A Conferência Ibero-Americana nasceu em 1991 como parte das comemorações da Descoberta das Américas conduzidas pela Espanha. O primeiro encontro foi realizado em Guadalajara, no México. É um fórum composto por 21 países - os latino-americanos, Portugal e Espanha - e um dos únicos do qual Cuba participa. Fidel deverá aproveitar a realização da cúpula em seu país para mostrar o repúdio de Cuba ao modelo econômico-financeiro internacional, como já fez em outras ocasiões.
Além das crises financeiras, outro tema do encontro será a criação da Secretaria de Cooperação Ibero-Americana, que terá sede em Madri e terá 80% dos gastos financiados pelo governo espanhol. O objetivo dessa secretaria, que deverá ter como primeiro presidente o mexicano Jorge Lozoya, é garantir a cooperação em diferentes áreas: científica, técnico-tecnológica e cultural. A secretaria fará um levantamento das capacidades dos países mais ricos em prestar ajuda e às necessidades dos países mais pobres do grupo. Um exemplo de mobilização ibero-americana foi a destruição provocada pelo furacão Mitch em países como El Salvador e Honduras. O Brasil ajudou com a doação de remédios e extinguiu dívidas com os dois países num valor total de US$ 290 milhões.

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