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sexta-feira, 12 de novembro de 1999
Por Clarissa Thomé 
Rio, 12 (AE) - O antigo prédio da Polícia Civil, que abrigou o Departamento de Ordem Política e Social (Dops), no centro do Rio, vai ser restaurado e transformado em centro de memória. A recuperação do edifício histórico, onde houve tortura de presos políticos na ditadura de Getúlio Vargas (1937-1945) e na militar (1964-1985), foi acertada hoje pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro e a chefia de Polícia Civil.
"As paredes desse prédio estão impregnadas por uma história que a Polícia Civil está questionando", disse o chefe da Polícia Civil, delegado Carlos Alberto de Oliveira, ao assinar o acordo. "Tivemos uma polícia política, de combate a ideologias, e a reforma desse prédio está no contexto de uma polícia voltada para o cidadão", afirmou. Prédio - O Palácio da Polícia, erguido em 1910, em estilo eclético (mistura de diversos estilos arquitetônicos numa só construção), foi o primeiro prédio projetado para ser sede da polícia. Com o desgaste do tempo e a transferência da chefia da Polícia Civil para um prédio ao lado, no fim da década de 70, o Palácio ficou abandonado. Hoje, apenas duas divisões permanecem ali.
Arquitetos e técnicos da UFRJ terão de recuperar os degraus de mármore, que estão carcomidos e desnivelados, o piso de peroba desbotado, vitrais quebrados, medalhões e ornamentações do teto avariados. A obra está avaliada em R$ 6 milhões, mas a verba ainda não está garantida. O chefe do Departamento de História e Teoria da Faculdade de Arquitetura, Jerônimo Silva, quer reunir arquivos da polícia e a biblioteca para montar o centro de memória. Os registros do Dops que estão no Arquivo Público do Estado podem ser transferidos para o Palácio.
O Museu da Polícia também seria recuperado. Algumas peças, como sapatinhos de bebê com a suástica desenhada e uma antiga garrafa de leite usada para ocultar a lista do jogo do bicho, já estão no prédio, mas a maior parte está dispersa. Um centro de convenções, livraria, restaurante e butique também estão nos planos dos arquitetos da UFRJ. "Essa restauração física é uma homenagem aos que sofreram aqui, um repúdio a esse sofrimento", afirma a diretora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Maria ¶ngela Dias. "O prédio ficou estigmatizado pela ditadura, mas a arte não está ligada a esses elementos".
Ator - O ator Mário Lago, que ficou preso no Dops diversas vezes entre 1932 e 1969, acredita que o historiadores devam acompanhar a formação do centro de memória. "É preciso que não se perca a história do País", afirmou. Lago lembra uma "noite de inferno" que passou na carceragem do Dops, em 1949. Ele dividia a cela com 30 presos que faziam revezamento para dormir. "Os policiais jogaram lá dentro um mendigo com a roupa embebida em ácido sulfúrico, foi uma noite horrível", afirmou.
O jornalista álvaro Caldas, no início de 1970, tem lembranças mais amenas. "As torturas se concentravam no Doi-Codi e no Cenimar e chegar ao Dops era como chegar ao paraíso", afirma. Ele conta que se recebia visitas e lia-se jornais. No livro "Tirando o Capuz", sobre o período de resistência à ditadura, Caldas relata o episódio em que teve interceptadas cartas que enviara para a mulher - presa na carceragem feminina do Dops. Chamado pelo comissário, achava que teria de dar explicações sobre a comunicação entre presos. Foi surpreendido. Um gordo comissário Maurício se mostrou comovido, sensibilizado com as cartas de amor. E confessou que também escrevia.
O escritor Graciliano Ramos, os líderes comunistas Luís Carlos Prestes e Olga Benário e o deputado federal Fernando Gabeira (PV) estão entre os que ocuparam celas do Dops. Até hoje
alguns funcionários dizem ouvir sons de vozes e gritos no edifício. O palácio teria ficado mal-assombrado por causa das torturas que ocorreram ali. "Isso fica a critério da imaginação de cada um", desconversou o chefe da Polícia Civil, Carlos Alberto de Oliveira.


