Porto Alegre, 12 (AE) - O padre Orestes João Stragliotto
da paróquia Santo Inácio, em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul
foi indiciado por co-autoria em crime de tráfico de mulheres. No dia 17 de setembro, foi depositada na conta corrente do pároco, de 71 anos, R$ 1,4 mil. O depósito teria sido feito por Paulo Sérgio de Almeida Mello, acusado de estar vinculado ao envio de brasileiras para a Espanha, onde fariam shows em clubes e se dedicariam à prostituição. O padre negou enfaticamente o envolvimento com o delito. "Depois de 71 anos de vida me acontece uma coisa que nunca esperei", desabafou hoje.
Em depoimento na superintendência da Polícia Federal de Porto Alegre, na quinta-feira, Stragliotto explicou que o dinheiro foi depositado na conta conjunta que possui com o assistente social da paróquia, Paulo Garcia da Silva. Segundo ele, quem pediu a Silva para usar a conta dos dois, na agência do Banco do Brasil de São Leopoldo, foi Délcio Gomes, também funcionário da paróquia. Gomes teria alegado que precisaria da conta para receber uma doação que viria da Alemanha para famílias carentes do município. Gomes está detido no Presídio Central da capital gaúcha.
Ele e Mello foram presos pela PF, na quarta-feira, por suspeita de traficar mulheres para a Espanha. "O Délcio era ótimo funcionário. Nunca desconfiamos dele", disse o padre. Na verdade, o dinheiro foi depositado em uma agência do BB na Espanha. Stragliotto contou que, ao saber da acusação, descobriu um comprovante bancário de que os R$ 1,4 mil - equivalentes a 130 mil pesetas - haviam sido transferidos imediatamente para outra conta. "Entreguei o documento, que estava com as coisas do Délcio, à polícia", relatou. Saunas - Gomes e Mello foram surpreendidos no Aeroporto Salgado Filho, de Porto Alegre, quando se preparavam para embarcar para a Espanha, acompanhados de C.S.R., 22 anos. A garota trabalha como dançarina em uma boate da capital gaúcha. Com eles foram encontrados jornais espanhóis contendo publicidade de clubes e saunas de Madri e Palma de Maiorca. Os anúncios estavam assinalados. C.S.R. disse aos policiais que a dupla havia acenado com ganhos de até R$ 4 mil mensais para trabalhar em boates. Em troca, Mello e Gomes receberiam um percentual sobre o que ela ganhasse.
O delegado da PF, Ricardo Rocha, que está cuidando do caso, disse hoje que é obrigado "a lidar com os fatos". E, dentro desta linha, com a comprovação do depósito que tem em mãos, optou pelo indiciamento do assistente social e do padre por co-autoria. O crime de tráfico de mulheres está previsto no artigo 231 do Código Penal e determina punição de três a oito anos de reclusão. Mas Rocha não pretende pedir a prisão preventiva do padre e do assistente social. "Não vejo necessidade. Eles tem endereço conhecido", comentou. Adiantou que agora pretende "abrir o leque das investigações". Tráfico - A PF tem informações de que Mello e Gomes enviaram pelo menos mais quatro mulheres para a Espanha aoenas em agosto deste ano. Outras três embarcariam em novembro. A polícia investiga, também, a destinação de outros depósitos bancários feitos por Mello na Espanha. "Engraçado, eu estou tranquilo", descreveu Stragliotto. "Um jornalista me perguntou se eu não estava preocupado com a minha imagem. Ora, isto não importa. O que importa é a verdade", argumentou. Com 17 anos na paróquia, que trabalha com a população carente, o padre está escrevendo uma carta aos paroquianos explicando o caso.

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