PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 12 de novembro de 1999
Por Brás Henrique, especial para a AE 
Ribeirão Preto, SP, 12 (AE) - O legista alagoano George Sanguinetti apresentou hoje (12), em Ribeirão Preto (SP), parecer preliminar sobre a análise dos laudos do caso Selma Heloísa Artigas da Silva, a garota de programa Nicole, morta em 11 de setembro do ano passado por arrastamento. Em sua avaliação
o legista descarta a possibilidade de o acusado, o comerciante de veiculos Pablo Russel Rocha, ter amarrado o cinto de segurança no braço esquerdo de Selma. No entanto, para Sanguinetti, a morte da garota não foi acidental. "Eu afasto a intenção do crime, do dolo, mas não a culpa, e o caso ainda necessita de esclarecimento", comentou.
Para complementar o trabalho, iniciado há cerca de dois meses com a leitura dos autos do processo, Sanguinetti e Lamartine Bizarro Mendes, perito criminal e professor da Academia de Polícia de São Paulo, que o acompanhou na reconstituição do caso, serão necessários mais 30 dias, inclusive com o ajuda de universidades. O advogado de defesa de Rocha, Luiz Carlos Bento, vai anexar o parecer do legista alagoano nos autos e tentará reverter a acusação contra seu cliente. O comerciante é acusado de homicídio triplamente qualificado (motivo fútil, modo cruel e por dificultar a defesa da vítima), que levaria o suspeito a júri popular. O legista alagoano foi contratado por um programa de TV para realizar a análise do caso.
Conclusões - Sanguinetti e Mendes chegaram a quatro conclusões. A primeira é de que Selma morreu em consequência de traumatismo crânio encefálico, com associação de traumatismos múltiplos, logo ao cair do veículo. Devido a isso, a morte foi instantânea e não precedida de agonia, como aponta o laudo oficial feito por peritos de Ribeirão Preto e de São Paulo, conclui. A terceira exclui a possibilidade de a garota ter sido amarrada, uma vez que não foram encontrados vestígios de nó no punho da mão esquerda da vítima. E, por último, não seria possível a Rocha, conduzindo a caminhonete Pajero, ouvir ruídos externos de qualquer tipo ou perceber o arrastamento da moça.
O legista usou um veículo semelhante ao de Rocha para percorrer o trajeto, inclusive arrastando um motoqueiro, com proteção especial, com o mesmo peso (cerca de 60 quilos) de Selma e na mesma velocidade (60 km/h) do veículo naquela madrugada. Ele afirma que "as ranhuras do forro do teto não foram resultantes de uma luta corporal de qualquer tipo". Apesar de todas as suas análises, Sanguinetti foi claro: "Não tenho resposta de como o cinto ficou amarrado em Selma e a tese de morte acidental eu não aceito". Perícia - Sanguinetti trabalhou com dados da perícia oficial, mas diverge dos peritos na interpretação dos fatos. "Ainda cabe ao Pablo o culposo, pois o condutor do veículo teria que estar mais atento", comentou. O advogado Bento disse que usará o parecer como documento e prova pericial, pois julga o laudo oficial inconcluso. Ele já recorreu ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), em Brasília, pedindo a nulidade do processo contra seu cliente, e espera o resultado para dezembro. Se for aceito o pedido, o processo poderá tomar novos rumos. "Com suspeitas e de forma arbitrária, o Pablo foi para o cárcere", disse Bento.
No início do processo, o promotor Djalma Marinho, insatisfeito com os dados preliminares, preferiu não denunciar o comerciante; o juiz de Execuções Criminais, Luiz Augusto Freire Teotônio, então, solicitou à Procuradoria Geral de Justiça a sua substituição. José Vicente Pinto Ferreira entrou no caso e denunciou Pablo por homicídio triplamente qualificado. Acusado - Hoje, na Cadeia Pública de Vila Branca, onde está preso preventivamente, Rocha falou com a imprensa pela primeira vez e admitiu que não sabe se Selma morreu acidentalmente. "Também quero saber como ela ficou presa", afirmou. "Foi uma tragédia para mim, para a moça, que eu não conhecia e só dei carona, e para a família dela". Sobre o futuro de seu caso, resumiu: "Não tenho pressa de sair daqui, mas quero a verdade". Rocha completa domingo (14), um ano e dois meses de prisão.


