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quinta-feira, 11 de novembro de 1999
Por Tânia Monteiro 
Brasília, 11 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso reafirmou hoje (11), em entrevista à Globonews, temer que o enraizamento do crime organizado alcance, no Brasil, níveis mais elevadas dos Poderes, como aconteceu em outros países, como a Itália.
Ele também defendeu a imediata aprovação da lei do sigilo bancário pelo Congresso, para facilitar o repasse de informações das instituições financeiras para o Banco Central, pois existem pelo menos 300 suspeitos de movimentação de dinheiro ilegal, protegidos pelo sigilo bancário. Para ele, é preciso pegar os "donos" do narcotráfico, aqueles que financiam a droga, e não o "pé de chinelo".
O presidente anunciou ter recomendado ao BC que "aperte" os bancos para que apressem a transferência de dados sigilosos para a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico.
Na entrevista, em que voltou a elogiar o trabalho da CPI, Fernando Henrique frisou ter determinado maior entrosamento entre a Polícia Federal, a Receita Federal e o Banco Central, lembrando que esta é uma medida fundamental para auxiliar as autoridades no combate ao narcotráfico.
Para o presidente, "o Brasil não está condenado a perder essa guerra para o narcotráfico". Ele avisou, no entanto, que o sucesso no combate ao crime organizado exige que não exista "competição burocrática" entre os órgãos envolvidos na repressão e que haja o engajamento de toda sociedade.
"Ou se entende que o Brasil é um só, que tem medo de violência, do assalto e de ver sua família envolvida com drogas, ou vamos perder a batalha", desabafou.
Fernando Henrique manifestou ainda preocupação com a alta de alguns preços no atacado, que estariam pressionando os índices de inflação e avisou que "qualquer tentativa de elevação da inflação, será fortemente combatida pelo governo".
O presidente fez questão de advertir que se o governo for obrigado a pagar indenização aos trabalhadores, por decisão da Justiça, referentes a reposição dos planos de estabilização, isso significaria a volta da inflação e aí toda a população pagará. As indenizações somam R$ 67 bilhões. "Espero que a Justiça, com calma, reponha isso nos eixos", declarou o presidente, acrescentando que vai fazer o possível para evitar esse pagamento.
Para Fernando Henrique, o próximo ano será melhor, apesar das dificuldades enfrentadas em 99. "Vejo terra à vista, mas tenho medo da tempestade", observou, sem explicar a que tempestades se referia.
A seguir, os principais trechos da entrevista do presidente:
ENRAIZAMENTO - "Esse enraizamento do crime me preocupa muito porque vemos policiais, políticos com mandato, pessoas ligadas à Justiça, e há uma situação muito grave, que precisa ser combatida. Por sorte do Brasil, esse enraizamento não atingiu níveis mais elevados em nenhuma instituição, mas pode atingir, como aconteceu em outros países, como na Itália".
LIMITE - "Não há limite algum nem para a CPI nem para qualquer outra organização que trabalhe contra o crime organizado. Essas coisas não podem ser encobertas, doa a quem doer".
GUERRA - "Não pode haver a sensação de que o Estado está perdendo a guerra para o narcotráfico. O narcotráfico desorganiza tudo, destrói famílias, penetra nas escolas, e tem de ser coibido. Para isso, tem de haver convergência porque não é só o Estado, mas toda a sociedade envolvida".
SUCESSO DA CPI - "Fiz questão de receber os integrantes da CPI porque eles se orientaram por combater o narcotráfico. Não foi para fazer política, não foi para acusar partidos políticos e isso permitiu maior agilidade dos trabalhos".
LEI DO SIGILO - "Fizemos várias leis, tomamos várias medidas, mas falta uma coisa importante: não temos autorização legal de transferência de sigilo bancário para outras instituições. Essa lei precisa ser aprovada. Se não houver entrosamento entre a Polícia Federal, a Receita Federal e o Banco Central, as informações ficam bloqueadas e acabam não sendo repassadas".
BARÓES - "Tem de pegar os donos do narcotráfico, quem ganha dinheiro com ele e quem lava dinheiro. Tem de chegar no coração disso, senão vamos pegar apenas o pé de chinelo. E isso depende de informações e da consciência da sociedade".
DISPUTA - "Com o novo ministro da Justiça (José Carlos Dias), está havendo maior entrosamento nos trabalhos entre a Senad (Secretaria Nacional Antidrogas) e a Polícia Federal, entre todos os órgãos envolvidos no combate. Não podemos aceitar competição burocrática quando o povo quer ver ação. A responsabilidade é minha? Não, a responsabilidade é nossa. Precisa-se de presteza. Não podemos ficar com briguinhas: Polícia Militar, Polícia Federal, Polícia Civil. Ou se entende que é um só Brasil, com medo de violência, do assalto, e de ver sua família ser assaltada ou vamos perder essa batalha. E o governo não vai perder essa batalha. Vai lutar com firmeza para ganhar essa guerra".
FORÇAS ARMADAS - "As Forças Armadas não têm treinamento específico para pegar narcotraficante porque depende de inteligência e treinamento. As Forças Armadas agem em destruição em massa. Pegar criminoso à unha não é papel das Forças Armadas. Elas estão próximas, não se negam a colaborar e dão apoio logístico".
ENVOLVIMENTO - "Eu não ficaria surpreso se nas apurações se constatasse o envolvimento de instituições financeiras com o crime organizado. No mundo todo é assim. Mas o Banco Central, de jeito nenhum, não tem nada com isso. Sabemos que existem mais de 300 suspeitos de movimentação de dinheiro ilegal".
QUEIXAS - "Ouvi reclamações da CPI por causa dos bancos. O BC colocou mais gente para ajudar. O Banco Central vai pedir aos bancos que eles informem melhor. Acho que eles podiam andar mais rápido. O presidente está atento a isso e o doutor Alvarez (Luiz Carlos, diretor de Fiscalizalização do BC) vai apertar os bancos
que têm de andar mais depressa. A CPI tem razão de reclamar. O Banco Central está ansioso para resolver isso".
CRUZADA - "A cruzada nacional que pedi contra o narcotráfico não é questão de sair com uma espada, fazendo bravatas. É uma ação contínua contra a impunidade e o narcotráfico. Isso é essencial para a democracia".
AGENDA NACIONAL - "Este assunto entrou para a agenda nacional
mas não se pode fazer demagogia, porque é muito fácil prometer mundos e fundos. Se permitirmos que cada um se arme, estamos perdidos. O caminho é esse. O outro, é o fim da democracia. É preciso que se abra essa discussão e é preciso evitar que vire demagogia ou sensacionalismo".
IMPUNIBILIDADE - "Uma grande parte do esforço que se faz no combate ao narcotráfico é anulado pela impunibilidade".
RAPIDEZ - "A rapidez da CPI não é ilusão porque ela tem tempo determinado. Não se pode transformar CPI em polícia. Essa CPI é importante porque está apresentando resultados. Quando a CPI faz só fogo de palha, acusa e depois não prova nada, é uma decepção".
VIOLÊNCIA E DESEMPREGO - "Não é correta a premissa de que violência se combate com emprego e renda porque senão não haveria violência nos Estados Unidos, país mais rico do mundo. O narcotráfico pega gente de classes alta e média".
INVESTIMENTOS - "Certamente as denúncias sobre o narcotráfico corroem a imagem do País (no exterior) e atrapalham a obtenção de investimentos, já que os investimentos vêm com a segurança. Mas eu estou preocupado é com o Brasil e a imagem é consequência do que acontece aqui".
INFLAÇÃO - "O COPOM não pôde reduzir as taxas de juros por causa da elevação de alguns índices que medem a inflação. Houve indicadores de elevação de alguns preços no atacado. Quando se olha o detalhe, vêem-se preços que subiram de forma administrada e em outros, houve exploração, como é o caso do álcool, que os produtores vão sofrer as consequências. Existem algumas pressões que são localizadas e o governo tem instrumentos para atacá-las. Vamos combater fortemente qualquer tentativa de subida da inflação".
DàLAR - "A ligação do aumento da inflação com o dólar é indireta, é psicológica, é uma parte pequena que não influencia sobre os preços. O dólar não chegou a disparar".
CRESCIMENTO - "Será de 4% (no ano que vem)."
JUSTIÇA - "Se o governo pagasse os R$ 67 bilhões de dívidas com planos de estabilização seria a volta imediata da inflação e os trabalhadores perderiam com isso. É um contra-senso. Espero que a Justiça, com calma, reponha isso nos eixos porque isso produziria um efeito contrário. O governo não tem como pagar e se houver decisão da Justiça, vai rodar a maquininha (de fazer dinheiro) e todo o País vai pagar porque dinheiro do governo é imposto. Vou fazer o possível para evitar isso".
PROBLEMAS - "Vejo terra à vista, mas tenho medo da tempestade. A taxa de desemprego está caindo".
RESPOSTAS - "Não vou acirrar briga só para responder. Não vou bater boca, vou ver se o caminho está certo. Nunca fiquei como gato fugindo dos problemas, ou atiçando tão pouco. Procuro ver o Brasil em mais longo prazo".
BASE ALIADA - "É uma maioria desorganizada. Mas eles votam. Não posso me queixar".


