PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 11 de novembro de 1999
Por Felipe Werneck 
Angra dos Reis, RJ, 11 (AE) - O batedor da Polícia Rodoviária Federal (PRF) Marcelo Frederico Pinto Marinho, de 28 anos, morreu hoje de manhã, após derrapar com sua motocicleta e chocar-se de frente com um caminhão de carga no km 427 da Rio-Santos (BR-101), quando estava a caminho de Angra dos Reis (litoral sul do Rio) para participar do Exercício Geral de Emergência da Central Nuclear de Angra. O comboio de 30 viaturas que o acompanhava retornou ao Rio após o acidente.
A Polícia Civil ainda não concluiu o laudo sobre as causas do acidente, mas a PRF admite que é alto o índice de vítimas fatais na região, por causa do estado de conservação da estrada - principal rota de acesso e evacuação da cidade no caso de um eventual acidente nuclear, como o que foi simulado hoje. O problema já preocupa até mesmo a Eletronuclear, operadora da Usina Angra 1. O superintendente de Apoio Operacional da empresa
Luiz Henrique Gonçalves, disse que se o governo federal não realizar as obras necessárias até o início de janeiro a empresa vai financiar a reforma da Rio-Santos.
"Essa estrada merece manutenção mais importante para aumentar a confiabilidade, esse não começarem as obras emergenciais, vamos adiantar R$ 12 milhões para o DNER", afirmou. De acordo com o deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ), que acompanhou a simulação do plano de emergência, já foi feito um relatório que aponta 39 pontos críticos na Rio-Santos. "Angra é um centro turístico com grande frequencia de população flutuante, por isso acho que é preciso trabalhar com a hipótese de um acidente nuclear ocorrer em dias de verão, com a cidade cheia", disse.
"Estamos muito longe de um plano que realmente dê segurança, e a estrada funcionar bem é uma condição para isso". Gabeira e os deputados Ronaldo Vasconcellos (PFL-MG) e Luiz Sérgio Nóbrega (PT-RJ), da Comissão Externa da Câmara, reclamaram também da falta de participação da população do exercício. Moradores da região consultados pela reportagem disseram não ter ouvido a sirene disparada no início da operação. "Não ouvi nem vi nada, acho que já estaria contaminado", disse o aposentado Luiz Carlos Andrade, de 53 anos, que passava de bicicleta na Praia do Frade no momento do teste. Simulação - No início da tarde, foi realizada a simulação do deslocamento de pessoas para os abrigos, num raio de cinco quilômetros da usina, mas apenas bombeiros (cerca de 100) participaram da atividade. "Os voluntários são do Corpo de Bombeiros porque a população da região já sabe como proceder graças às campanhas de esclarecimento", garantiu o capitão Renato Pontes, coordenador de operações do Deslocamento do Frade. Também foi simulado o atendimento de um radioacidentado.
Na usina, quando tocaram as sirenes, cerca de 2.500 pessoas participaram do exercício, parando suas atividades e dirigindo-se para pontos de reunião. Trabalham hoje cerca de 400 funcionários em Angra 1 e 2.500 na construção de Angra 2. "A gente fica preocupado de trabalhar aqui, porque corre risco todos os dias", acredita o operário Genílson Leal, que trabalha há dois anos e três meses na usina. "Dizem que o sistema de segurança é incrível, não tenho medo de nada, mas minha filha fica preocupada", disse a funcionária do setor de limpeza Irene Ferreira, de 36 anos, há cinco na usina.
Para o procurador da República no Rio Daniel Sarmento, que também acompanhou as atividades, o plano de emergência "está longe do ideal, mas está melhorando com o tempo". Relatório - Os parlamentares vão preparar um relatório sobre o exercício, que será encaminhado ao governo federal. Entre as reivindicações, eles pedirão a compra de novas sirenes para instalar nas chamadas zonas de sombra, o aperfeiçoamento de serviços como o telefone da Defesa Civil (atualmente, ao discar para o número 193 de Angra, a ligação cai do destacamento de Volta Redonda) e a concessão de autorização especial para as rádios comunitárias da cidade. "Elas são essenciais na divulgação rápida de informações", disse o deputado Nóbrega, que é ex-prefeito de Angra.
Ainda sobre a questão da segurança na estrada - que possui diversos quebra-molas (proibidos pelo Código de Trânsito) -, ele disse acreditar que "pessoas podem morrer fugindo", ao referir-se à hipótese de acidente nuclear em Angra. O teste de hoje foi o décimo realizado desde 1996, mas o segundo geral - o primeiro foi em 1997.
As atividades reuniram homens das Forças Armadas, das Polícias Militar e Rodoviária Federal, da Defesa Civil do Estado
do Corpo de Bombeiros, da Eletronuclear e da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), órgão fiscalizador do Ministério da Ciência e Tecnologia. O obetivo da operação é testar a eficiência do sistema de segurança na região.
A divulgação do balanço final do exercício, que foi acompanhado por quatro peritos de agências internacionais de energia atômica, está prevista para o dia 22. De acordo com o perito inglês Ian Hill, o exercício ocorreu "dentro dos padrões internacionais de segurança".


