Washington, 09 (AE) - O diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), o francês Michel Camdessus, anunciou hoje (09) sua renúncia ao posto que ocupou nos últimos 12 anos e meio - mais do que qualquer de seus antecessores nos mais de 50 anos de história da organização. Ele deixará o posto dentro de aproximadamente cem dias, dois anos e meio antes de completar seu terceiro mandato de cinco anos. Camdessus, de 66 anos, oficializou sua saída hoje durante um almoço com os 24 diretores-executivos que representam os 183 países membros do FMI. À tarde, ele deu a notícia aos cerca de 2 mil funcionários do FMI, numa reunião no átrio do prédio que serve de sede à organização, no centro de Washington.
As consultas para a escolha do sucessor começaram mesmo antes de Camdessus confirmar os rumores de sua saída, que ele próprio alimentara num discurso e em outras declarações públicas, nas últimas semanas. O comando do FMI é tradicionalmente ocupado por um europeu, enquanto o Banco Mundial é dirigido por um americano.
Há pelo menos oito nomes cotados para disputar a sucessão de Camdessus. Num sinal do empenho do governo do primeiro-ministro Tony Blair de preencher um posto-chave nas finanças internacionais, que é ocupado há duas décadas por franceses (Jacques DeLarosiere antecedeu Camdessus), há nada menos do que quatro candidatos potenciais ingleses: o ministro das Finanças, Gordon Brown, o presidente do Banco Internacional de Compensações (BIS), Andrew Crockett, o vice-governador do Banco da Inglaterra, Mervyn King, e o alto funcionário do Tesouro britânico, sir Nigel Wicks. Brown talvez tenha revelado a ansiedade de Londres em assegurar a vaga para um de seus candidatos prestando homenagem "à grande contribuição de Michel Camdessus" antes mesmo de ele anunciar publicamente sua renúncia.
A Alemanha, que têm o peso de primeira potência econômica da Europa no processo de escolha, oferece dois nomes: Horst Koehler
presidente do Banco Europeu de Reconstrução de Desenvolvimento, e Caio Koch-Weser, ex-vice-presidente do Banco Mundial e atual vice-ministro das Finanças, que tem a peculiaridade de ser natural do Brasil. Filho de imigrantes alemães, ele nasceu em Rolândia, no Paraná.
O vice-diretor-geral do Tesouro da Itália, Mario Draghi, também é citado. E, como não pode faltar um francês na disputa de altos cargos de organizações internacionais, o governador do Banco da França, Jean-Claude Trichet, também está no páreo.
Tendo ocupado o comando do FMI num período durante o qual o mundo assistiu ao colapso das economias de planejamento central na Europa, ao avanço em todo o mundo do modelo liberal de mercado pregado pelo FMI e ao surgimento de um novo e virulento tipo de crise financeira na economia globalizada, capaz de devastar anos de progresso de países em desenvolvimento e ameaçar a estabilidade de nações industrializadas, Camdessus escolheu um momento positivo para dar sua missão por cumprida.
Criticado pela esquerda e pela direita nos países ricos e pobres por causa das políticas e/ou da maneira como conduziu as várias crises, o ex-militante da esquerda católica francesa, que chegou a presidente do Banco da França, deixa o cargo com os focos dos incêndios mais recentes nas finanças internacionais debelados, a agenda do FMI de reformas pró-mercado e de maior transparência na divulgação de dados econômicos assimilada nos programas econômicos num número recorde de países, a construção de um novo quadro regulatório da economia global em execução e a economia mundial apontada para um período de crescimento robusto.
De fato, com exceção da Indonésia, as economias asiáticas superaram a crise financeira iniciada em 1997 na Tailândia. O México não apenas se recuperou economicamente como avançou no processo de democratização política, em grande parte em consequência da debacle econômica. A Rússia, que deu origem à mais recente manifestação da crise global, está sob controle.
E o Brasil é hoje apontado como uma das maiores provas dos méritos tanto de sua ortodoxia em matéria fiscal como da nova estratégia da organização de agir preventivamente para imunizar os países contra o contágio das crises internacionais.





