Berlim, 09 (AE-AP) - A Alemanha rendeu tributo nesta terça-feira (09) aos "valorosos alemães-orientais" que com suas manifestações pacíficas de protesto precipitaram em 9 de novembro de 1989 a queda do Muro de Berlim - símbolo da guerra fria.
"A queda do muro não foi decidida em Bonn, Washington ou Moscou, mas pela gente valorosa que saiu às ruas gritando somos o povo", disse o chanceler alemão, Gerhard Schroeder, que presidiu no Reichstag (Parlamento) a cerimônia política do 10º aniversário do fim da muralha que dividia a Europa (em capitalista e comunista).
O ato contou com a presença dos líderes mundiais da época, protagonistas da reunificação da Alemanha 11 meses depois da queda do muro: o ex-chanceler alemão Helmut Kohl e os ex-presidentes George Bush (Estados Unidos) e Mikhail Gorbachev (antiga União Soviética).
Em seu discurso, Bush concordou plenamente com Schroeder. "Foram as pessoas nas ruas (da antiga Berlim Oriental e outras cidades do território controlado pelos comunistas) que puseram o movimento em marcha", ressaltou o ex-presidente norte-americano.
"O dique rompeu-se e a liberdade jorrou literalmente pelo muro, como uma cascata."
Schroeder destacou também o papel de Gorbachev no episódio. Além de desencadear uma série de reformas liberais na ex-URSS, o ex-líder soviético recusou-se terminantemente, na época, a ordenar às tropas soviéticas estacionadas na ex-RDA que sufocassem o movimento popular.
"As pessoas não teriam podido expressar em 1989 seu irrefutável desejo de liberdade se não fosse a política de reformas determinadas pelo presidente Gorbachev", recordou o chanceler alemão.
Kohl lembrou, por sua vez, que os alemães orientais gritavam sem parar o nome de Mikhail Gorbachev nas marchas em prol da democracia. "A gente confiava nele. O nome dele está intimamente ligado ao fim da guerra fria. Sem a presença dele, a revolução pacífica na Alemanha Oriental não teria sido possível. O povo alemão está muito agradecido pelo que Gorbachev fez e permitiu fazer."
Gorbachev atribuiu o episódio à vitória de dois povos. "Os verdadeiros heróis da reunificação são os povos alemão e russo"
disse. "A queda do muro deu chance para a transição pacífica de uma etapa do acontecer mundial e, por isso, o 9 de novembro não é apenas um dia de festa para os alemães, mas para todos os habitantes da Terra."
Bush referiu-se, por último, a um "fato fundamental" que, no seu entender, contribuiu decisivamente para o desenvolvimento pacífico de todo o processo da reunificação: a estreita amizade existente entre os três líderes.
O presidente norte-americano, Bill Clinton, classificou a queda do Muro de um dos maiores triunfos da liberdade humana.
Em Moscou, a chancelaria russa divulgou nota ressaltando que a data deve servir de reflexão sobre a necessidade de se impedir a criação de novas linhas de separação na Europa. O governo russo denunciou mais uma vez o que qualificou de incompreensível desejo de expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
Para o presidente francês, Jacques Chirac, que cumprimentou os alemães, "agora é preciso terminar a tarefa, ampliando a União Européia com a admissão de outros povos europeus".
O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, disse ver no episódio não só um marco na história da Europa, como uma grande afirmação do povo alemão.
Depois da cerimônia no Parlamento, Kohl, Bush e Gorbachev dirigiram-se à famosa Rua Bernauer, no bairro berlinense de Wedding, para depositar flores num pequeno trecho preservado do muro.
À noite, milhares de alemães assistiram diante da Porta de Brandenburgo a um concerto de obras de Bach e Villa-Lobos (do qual participaram 166 violoncelistas de todo o mundo), regido pelo maestro e violoncelista russo Mstislav Rostropovich.
A festa - que contou com as presenças do cantor alemão Udo Lindenberg, interpretando seu Hino de Berlim, e da banda de rock Scorpions, com a canção Wind of Change (Ventos da Mudança) - culminou com a iluminação da área de 43 quilômetros de extensão (em Berlim), que era ocupada pelo muro.
Noite dos Cristais - Em meio à festa da queda do muro, a comunidade judaica alemã lembrou hoje o 61º aniversário da chamada Noite dos Cristais. Em 9 de novembro de 1938, agentes nazistas à paisana assassinaram 91 judeus, incendiaram 250 sinagogas, saquearam e destruíram lojas e empresas da comunidade e iniciaram o confinamento de 25.000 judeus em campos de concentração.

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