Paris, 09 (AE) - O comunismo suscitou dois momentos de extrema importância neste século: a primeira vez, quando surge, na barulheira das balas de canhão do cruzador Aurora, e anuncia o fim da injustiça e o nascimento da felicidade. Uma segunda vez, em seu crepúsculo, quando em 1989, multidões arrancam os tijolos do "Muro de Berlim".
Em 1917, então, a esperança da fraternidade, breve esperança, pois poucos anos depois a alegria já morreu, e foi substituída, durante 70 anos, por uma sociedade totalitária, mortífera e insensível.
Das esperanças traídas de 1917 ficaram somente a dor e a tristeza.
E o que aconteceu com a esperança de 1989, com essa alegria universal, com essa dança em torno dos fragmentos do muro? O que fica da festa?
Resta um ganho imenso: o Império das estepes, seus segredos, suas masmorras empestadas, seus policiais, seu gulag, tudo isso está tombado durante anos na memória, e o maior pesadelo do século (depois daquele do nazismo), enfim, é eliminado de nossos sonhos. Neste sentido, a esperança não foi traída. O comunismo soviético morreu.
As democracias venceram a partida: a liberdade voltou aos cenários de onde ela havia sido eliminada em 1917.
Mas, o que seria colocado no lugar das purulências da sociedade comunista? E aí, o balanço das esperanças é menos brilhante. A economia de mercado que maravilhou os Estados Unidos, a Europa, às vezes a América Latina, não pôde ser implantada na Rússia, apesar dos exércitos de conselheiros, apesar dos rios de dólares derramados pelo Ocidente no Kremlin.
O mesmo país que, no tempo do comunismo, alimentava bem ou mal, mas regularmente, seus cidadãos manteve um exército gigante, distribuiu para todos os partidos comunistas do mundo montanhas de ouro, financiou os partidos terroristas ou extremistas da áfrica, da América, da Europa ou da ásia foi substituído por um país em ruínas, cheio de desempregados e de doentes, atravessado por exércitos de homens e de mulheres com a dor da pobreza, sem futuro nem visão e na podridão de que estão cheios, como um exército de vermes, os especuladores monstruosos que se nutrem "do sangue dos pobres" (para retomar a terrível expressão do panfletário francês Léon Bloy, no século XIX).
Nos outros molambos do Império das estepes, a situação é mais cheia de contrastes: muitas democracias populares, como a Polônia, a Tchecoslováquia etc. souberam tomar o caminho liberal ou, pelo menos, produtivo que a Rússia bêbada e impura de Boris Yeltsin não conseguiu.
E, apesar disso, esses países são infelizes, amargos, nostálgicos da segurança que lhes proporcionaria o sistema comunista: em cada eleição os alemães do Leste manifestam sua nostalgia do mundo antigo. Os húngaros fazem o mesmo. E o que dizer da Bulgária, da Romênia onde o marasmo é total? O pior é o delírio sangrento que tomou a Iugoslávia desde o dia em que, a maré comunista baixando, subiram à superfície as praias e os ódios milenares.
Mas afinal, costuma-se dizer, o estado miserável desses países, encabeçados pela Rússia, explica-se exatamente pelo longo terror comunista. É verdade. Mas é preciso disso deduzir que o resto do mundo, o mundo livre nos dá razões para manifestar uma grande alegria?
Certamente, não! A América, a partir de então toda-poderosa, e sozinha nos comandos do mundo, não conseguiu administrar esse privilégio. Ela navega às cegas entre a tentação do controle do mundo e a tentação contrária, a do isolacionismo.
Certamente, a queda do muro favoreceu o triunfo, já preparado durante longas décadas de talento e de sucesso, do liberalismo, do mundialismo, da desregulamentação. Consequentemente, em todo o mundo rico, assim como no mundo deserdado, um aumento da riqueza geral, global, mas também um crescimento insuportável, às vezes desumano, das desigualdades e o abandono dos que não tiveram a chance de nascer ricos. É aí que a esperança que surgiu em 1989 deveria colocar na cabeça a idéia de voltar: que o mundo, enfim livre do horror stalinista, encontre meios de tornar a formidável energia do mercado compatível com a proteção daqueles que, cada vez mais, estão nus.





