Varsóvia, 09 (AE-AP) Grzegorz Stepien não encontrou muito utilidade para sua especialidade durante a era comunista, por isso passava o tempo construindo barcos a vela e participando de regatas para terras distantes como a Austrália.
"Não era um bom momento para se trabalhar como engenheiro de computação", diz ele, atirando a cabeça para trás e rindo com seu vasto bigode.
Quando os comunistas da Polônia perderam o poder há uma década, como parte da revolução na Europa Oriental que derrubou o Muro de Berlim em 9 de novembro de 1989, Stepien lançou-se na carreira de negócios, importando e vendendo revistas ocidentais sobre barcos a vela. Esse dia marcou o fim da sua carreira de velejador. "Agora só tenho tempo para praticar windsurfing", diz ele.
Stepien, de 48 anos, navegou as águas turbulentas da transição para o capitalismo vivida pela Polônia construindo uma rede de livrarias e distribuindo jornais e revistas ocidentais. E agora está em uma orgia de compras, adquirindo a empresa que administra a feira de livros anual na Polônia e comprando posições controladoras de uma casa editora.
Como outros empresários emergentes, aprendeu a diversificar para se manter à frente de um mercado em rápida mudança. "Nossas atividades são suficientemente diversificadas para nos garantir que não haverá um colapso de todas ao mesmo tempo", diz sua filha e parceira nos negócios, Alksandra, de 25 anos, graduada em prestigiadas faculdades de direito e administração de empresas.
Mas o futuro de forma nenhuma está assegurado para Stepien e filha, pois eles temem que, com o esperado ingresso da Polônia na União Européia em 2003, grandes empresas ocidentais venham a dominar o mercado. "Sabemos que o grande dinheiro europeu pode chegar e dizer: Paparemos vocês de sobremesa", diz Stepien.
O futuro é ainda mais incerto para milhões de outros poloneses e europeus orientais que não aprenderam a conviver com o capitalismo. Após a derrocada do comunismo, a produção despencou em todo o ex- bloco soviético quando as gigantescas siderúrgicas e outras fábricas descobriram que nem seus ex-clientes do Oriente nem seus clientes em perspectiva no Ocidente queriam seus produtos ultrapassados e de qualidade inferior..
De todos os países do ex-Pacto de Varsóvia, somente a Polônia conseguiu fazer sua economia voltar a um nível igual ao que era antes de 1989, embora a Hungria e a Estônia estejam próximas. A Alemanha Oriental, que foi reunificada à Alemanha Ocidental, goza de um crescimento contínuo, mas o lado leste ainda não atingiu os padrões de vida da metade ocidental.
"Em termos econômicos e sociais, estamos muito pior do que antes", diz Andrzej Lepper, líder do movimento dos agricultores poloneses, o Sammobrona, que tem levado seu protesto para as ruas. "Em termos financeiros, estou em pior situação e todos os agricultores estão piores do que antes", diz Lepper. "Temos um grupo de gente rica, cerca de 5% da população; cerca de 15%, incluindo funcionários públicos, têm uma boa vida, e 80% dos poloneses vivem na pobreza".
Os números e a raiva são mais ou menos os mesmos em toda a região. Na Hungria, um compositor e artista cênico, diz que vivia com mais conforto sob o socialismo. "Naquela época, o Estado gastava muito dinheiro com artes e os artistas cênicos eram muito mais procurados. Eu tinha meios de levar a família para passar férias no exterior", diz Huzella, que é o anfitrião de um programa musical semanal na televisão estatal polonesa.
Para os húngaros, esta é a segunda pior década do século, segundo uma recente pesquisa de opinião pública. A década de 40 foi a menos preferida, quando a nação foi castigada pela guerra e pela ocupação. Entre os pesquisados, 46% disseram que a melhor década foi a de 70, quando o Partido Comunista no poder empreendeu as reformas econômicas que abriram as fronteiras e afrouxaram as rédeas sobre a livre empresa. Somente 2% gostaram da década de 90.
Mas o sociólogo Nikos Fokas está esperançoso. "Acho que o país já passou do ponto crítico em termos de economia", diz ele. Embora 3 milhões dos 10 milhões de habitantes da Hungria viverem no nível ou abaixo do nível de pobreza, "no geral, as mudanças foram positivas".
A idade faz diferença. Aqueles que viveram sob a égide do socialismo a maior parte de sua vida sentem falta da sua predicabilidade. "A vida era mais barata nos velhos tempos. Tive o suficiente para criar e educar meu filho", diz Stefania Sujecka, de 78 anos, um encadernador de livros aposentado que mora em Varsóvia, a capital da Polônia. "Mas a vida também não era fácil você passava muito tempo nas filas", acrescenta, repetindo um refrão comum.
O futuro pertence aos jovens, energéticos e ousados. Há uma década, Rain Lohmus, então com 22 anos, não poderia imaginar que no seu país, a Estônia, os bancos privados um dia tomariam o lugar do sistema financeiro soviético, que era controlado centralmente. Mas, em 1991, Lohmus e uma meia dúzia de colegas de faculdade fundaram um banco privado, o Hansapank, com menos de US$ 50 mil.
Nenhum dos fundadores tinha muitas informações sobre o sistema bancário ocidental. Transferir dinheiro muitas vezes significava jogar o dinheiro vivo em uma sacola e transportá-lo pela cidade. Uma década mais tarde, o Hansapank é o maior banco da região báltica e seus fundadores estão multimilionários. "Não imaginamos que seríamos tão bem sucedidos", diz Lohmus. "Pensamos que demoraria muito mais tempo para fazer a coisa funcionar".

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