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segunda-feira, 08 de novembro de 1999
Por Alceu Luís Castilho 
São Paulo, 08 (AE) - Eram 10h30 de hoje quando Alam Michel de Souza Oliveira, de 9 anos, subiu uma escada para buscar a bola de futebol com a qual brincava todos os dias. Ela tinha caído no que pareceu a Alam ser uma laje, pouco acima do pátio do prédio onde brincava com o amigo Wallace Oliveira da Silva, de 10. A laje era uma caixa-dágua. Alam pisou na tampa de madeira do reservatório, podre, e caiu de uma altura de mais ou menos 3 metros. Retirado, respirou ainda por alguns minutos, à espera do resgate, que não veio. Chegou ao Pronto-Socorro da Santa Misericórdia de São Paulo já morto, levado por policiais militares, ao meio-dia.
O caso seria mais uma história do cotidiano da metrópole não fossem o cenário e os personagens envolvidos. Alam era o filho único de um casal de sem-teto: o soldador Carlos Roberto de Oliveira e a dona de casa Ivanilde Narciso de Souza Oliveira. Junto com outras 300 famílias, eles haviam invadido na noite de domingo o edifício do antigo Hotel São Paulo, na Rua São Francisco, Praça da Bandeira, em mais uma das recentes ocupações políticas promovidas por grupos de sem-teto. Assim como a tampa da caixa-dágua, quase tudo no prédio invadido pelo Fórum dos Cortiços estava podre.
Gritos - O pedreiro Francisco de Oliveira estava no quarto andar quando escutou os gritos de Ivanilde. A mãe de Wallace, Geralda Paixão da Silva, disse que Ivanilde não acreditou quando o filho disse que Alam tinha caído. Depois, começou a gritar. Francisco pegou uma corda e desceu. Com o técnico em eletrônica Antônio Batista de Oliveira Filho, conseguiu tirar o menino da água. Fez respiração boca-a-boca. Alam ainda respirava. "Quando passou aqui já estava morto", contou mais tarde a enfermeira Elza da Silva, no saguão doedifício. "Peguei no pulso dele e já não tinha mais nada."
Resgate - Um dos sem-teto carregou Alam até um carro da Polícia Militar. Os policiais esperaram o resgate por 20 minutos. Como ele não veio, decidiram enrolar o garoto em um lençol. A informação da Gerência de Comunicações da Santa Casa de Misericórdia foi a de que Alam já estava "em óbito".
Desespero - O pai do garoto chegou às 14 horas ao local do acidente, dez minutos depois de as lideranças do movimento terem pedido às famílias com crianças que seguissem para a Rua da Abolição, onde seria servido o almoço. Aos gritos, o soldador atirava-se contra a porta de vidro, uma das únicas coisas intactas no edifício.
As despesas do velório e enterro vão ser bancadas pela União dos Movimentos de Moradia (UMM), associação à qual está filiado o Fórum dos Cortiços. Assim como Carlos Roberto, Ivanilde não quis falar com a imprensa. No necrotério da Santa Casa, com a cabeça no ombro do marido, ela olhava fixamente para o chão.


