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segunda-feira, 08 de novembro de 1999
Por Clarissa Thomé 
Rio, 08 (AE) - O bispo de Duque de Caxias (RJ), dom Mauro Morelli, presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Alimentar, criticou hoje o Programa Comunidade Solidária, coordenado pela primeira-dama Ruth Cardoso, durante abertura do 1.º Seminário de Segurança Alimentar e Nutricional, no Rio. Para dom Mauro, atitudes solidárias não cabem ao Estado, mas à sociedade civil. "A primeira-dama não tem que pedir ajuda a empresário: empresário paga imposto e o presidente tem que aplicar o imposto para promover cidadania", afirmou, na sede da Federação das Indústrias dos Estado do Rio de Janeiro.
"O que estamos discutindo é cidadania", afirmou o religioso, ao condenar a "compaixão melosa". "Não temos de ter pena de uma criança faminta; é preciso pensar que aquela criança é carne da minha carne e indignar-me, porque é a minha humanidade que está sendo negada". Dom Mauro defendeu ações do governo para garantir o acesso dos pequenos produtores à terra e programas de geração de trabalho e renda. Ele usou tom ainda mais duro ao comentar a distância dos governantes dos problemas da população. "Governo encastelado, como nosso querido sociólogo faz em Brasília, corre o risco de cair na demência".
O seminário de hoje, que teve a participação do governador Anthony Garotinho, secretários estaduais e organizações não-governamentais (ONG), é o primeiro passo para a criação de um Conselho Estadual de Segurança Alimentar (Consea), que discutirá a fome e a miséria no Rio. Dom Mauro Morelli preside o Fórum Brasileiro de Segurança Alimentar e Nutricional e formou núcleos em Minas Gerais e no Mato Grosso do Sul. Conselhos estão sendo criados também no Rio Grande do Sul, Acre, Amapá e em São Paulo e Alagoas. Subnutrição - Durante o seminário, o economista do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) Francisco Menezes propôs o monitoramento "imediato" da situação de indigência e subnutrição no Estado, a exemplo do que é feito em Minas Gerais. "Sabe-se que 18,6% das crianças com menos de 5 anos são desnutridas", disse o economista. "É um dado gravíssimo, porém, mais grave é ignorá-lo".
Menezes lembrou os números do Mapa da Fome do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada, que em 1993 contabilizava 32 milhões de brasileiros em situação de indigência, número que em 1996 havia sido reduzido em 10 milhões. "Essa redução é atribuída ao Plano Real, mas há estudos não-oficiais que falam de um retorno aos 32 milhões, por causa do desemprego", afirmou.
A professora de Nutrição da Univerdidade Federal Fluminense, Luciene Burlandy, reuniu diversos trabalhos sobre a alimentação no Estado, para tentar dar um panorama da subnutrição no Rio. "É um quadro complexo, em que encontramos subnutrição em 11,3% das crianças até seis anos numa creche do município do Rio, convivendo com a obesidade em 15,6% das crianças da região metropolitana do sudeste".
O governador e secretários estaduais falaram sobre ações para combater a miséria, como programas bolsa-escola, cesta cidadão e o moeda verde, de crédito ao pequeno produtor rural .


