São Francisco, 08 (AE) - Apesar de todo o entusiasmo da indústria com o documento divulgado sexta-feira pelo juiz federal Thomas Penfield Jackson, que considerou a Microsoft um monopólio, o Vale do Silício tem pelo menos uma preocupação: a de que o episódio estabelece um precedente para a intervenção do Estado no setor.
"Ninguém gosta da Microsoft, mas também ninguém gosta de ver o governo envolvido em decisões de projeto de desenvolvimento de software", disse o professor Hal R. Varian, decano da escola de gerenciamento de informação e sistemas na Universidade da Califórnia em Berkeley.
Esse tipo de preocupação deriva da afirmação do juiz, no documento, de que a integração do navegador Internet Explorer ao sistema operacional Windows "ameaçou desnecessariamente a estabilidade e a segurança do sistema operacional".
Por outro lado, os esforços do capital e dos empreendedores do Vale do Silício se têm concentrado particularmente na criação de jovens empresas voltadas para a Internet, onde o sistema operacional utilizado pelo usuário não é relevante.
Especializadas em software, serviços e comércio eletrônico, essas novas empresas não usam e não precisam usar o Windows nem dependem do padrão Microsoft de computação para tocar seus negócios. Esse é o caso, por exemplo da pequena Inclusion, que inventou um software para criar comunidades na Internet.
"É bom saber que, daqui para a frente, nossos concorrentes potenciais não vão ter um monopólio por trás deles", disse o presidente da Inclusion, John Duhring, ressalvando que a punição da Microsoft terá pouco impacto em seus negócios.
Já os inimigos de carteirinha da gigante do software adiantam-se para propor punições. A Sun Microsystems, por exemplo, divulgou nota na própria sexta-feira sugerindo, entre outras coisas, que a Microsoft seja "proibida de comprar os canais de distribuição do futuro", como empresas de cabo ou de comunicação sem fio, e que também seja "proibida de comprar, em vez de inventar tecnologias".
A maioria dos especialistas concorda que o documento de Jackson foi muito mais agressivo e danoso à Microsoft do que eles esperavam. Há duas opiniões entre eles sobre a possível sentença a ser proferida, provavelmente no final de janeiro.
Uma das correntes acredita que a única solução é dividir a empresa em pelo menos três companhias independentes; a outra corrente acha que isso seria uma solução radical e de difícil aplicação, que no final prejudicaria os consumidores, e propõe estabelecer um conjunto de regras que a Microsoft seria obrigada a cumprir, reduzindo substancialmente o seu poder no mercado.
Há uma grande probabilidade de que o processo antitruste contra a Microsoft acabe na Suprema Corte americana dentro de dois anos, com uma ampla adaptação da legislação antitruste - o Sherman Act, de 1890 - aos tempos da Era da Informação e ao século 21.
Já se discute se a adaptação seria verdadeiramente necessária ou se o documento de Jackson teria deixado claro que a indústria contemporânea não difere dos padrões anteriores no que concerne à formação de monopólios e cartéis.





