São Paulo, 05 (AE) - Até descarregar a arma na sessão de cinema, o estudante Mateus da Costa Meira se preparava para a formatura numa renomada faculdade, a da Santa Casa de São Paulo. Pretendia ser oftalmologista. O caso despertou o debate: as universidades não deveriam acompanhar mais de perto seus alunos e ser mais criteriosa na formação dos profissionais?
A maior parte das escolas de medicina tem serviços de apoio psicopedagógico para os estudantes. Na Santa Casa, a Retaguarda Emocional para Alunos de Medicina (Repam) é procurada espontaneamente por cerca de 10% dos alunos. As queixas mais comuns, conforme a psicóloga Patrícia Bellodi, são problemas com as disciplinas, em lidar com a carga de estudos e o pouco tempo de lazer. "Dúvidas de escolha profissional e dificuldades de lidar com a questão da vida e da morte também são normais."
Em alguns casos, os professores também encaminham "estudantes-problema" para conversas com psicólogos. Foi o caso de Meira. Estes episódios, segundo Patrícia, são raros e não chegam a dar estatísticas. "O estresse do curso é grande, mas cada um reage a ele de acordo com características pessoais que traze ao entrar na faculdade."
Para a psicóloga, a faculdade faz o que pode e não é sua função patrulhar a vida dos estudantes. A posição cria controvérsias. "Em nome do não-patrulhamento, profissionais acabam se omitindo e não dá para brincar com isso", acredita a psicóloga Neusa Aguiar. "Por que não aplicar testes projetivos de personalidade e fazer avaliações psicológicas anuais nos estudantes para evitar que casos deste tipo ocorram?", pergunta a também psicóloga Miriam Vilma Alonso.
Estudo - O professor de sociologia da Universidade São Francisco Milton Greco sugere um estudo de como, sob o ponto de vista ético, o aluno de medicina entra e sai da faculdade. Orientador de mestrado sobre o assunto, ele afirma que o uso de drogas e álcool entre os alunos é grande e muitos não têm a preparação necessária para frequentar o curso. "É bom nos perguntarmos se por trás de um erro médico não existem erros do ensino médico."
Os especialistas concordam que os alunos de medicina são muito exigidos socialmente. "A expectativa deles consigo mesmos e da sociedade sobre eles é altíssima", diz Neusa. "Isso gera tensão, que pode trazer problemas com auto-estima, medo e, em casos mais graves, distúrbios de conduta."
Drogas - Outro problema nas faculdades de medicina é o acesso a medicamentos e drogas. O diretor da Santa Casa, Rolim, nega. "Os alunos não consomem drogas no hospital da instituição
o que isenta a faculdade de qualquer responsabilidade." De acordo com o professor Décio Cassiani Altimari, o laboratório de farmacologia é sempre controlado e nunca houve queixas sobre desaparecimento de drogas. "Se o sujeito rouba uma chave ou faz chave falsa não dá para saber, mas não temos informação de que o mecanismo de proteção aos materiais tenha falhado.""Na Santa Casa isso é lenda", concorda o procurador do Centro Acadêmico Manoel de Abreu, da faculdade. Alípio Naphal diz, porém, que sabe de colegas que usam drogas, principalmente em festas.
Naphal reconhece ainda que a carreira pode ser frustrante e estressante. "As pessoas acham que o médico ganha bem, é bem-sucedido, mas a profissão anda desvalorizada", diz. "Com a competição do mercado de trabalho, médico agora não é profissional liberal, virou funcionário de empresa de seguro ou convênio e tem de dois a três empregos para se manter."Muitos citam o caso do sextanista Meira como mais uma chateação. "Agora vão dizer que todo mundo que estuda aqui é maluco", diz um estudante do 5.º ano da Santa Casa, que não quis identificar-se. "Eu não vou dar meu nome, porque depois vão dizer que eu também sou louco."





