Paris, 04 (AE) - O chamado regime de coabitação francês entre um presidente de direita, Jacques Chirac, e um primeiro-ministro de esquerda, Lionel Jospin, parece estar chegando ao fim. Isso depois de ter funcionado como um relógio durante dois anos e meio - com muito apoio da opinião pública, embora esta soubesse de antemão que a ruptura entre ambos seria inevitável. Afinal, Chirac e Jospin são candidatos à presidência da república em 2002.
A ameaça concreta de fim da coabitação, até agora elegante e pacífica, seria a primeira consequência grave da súbita demissão do superministro de Economia e Finanças Dominique Strauss-Kahn. Pela primeira vez se assiste a um duelo pessoal na alta hierarquia do Estado, num nível infelizmente baixo - o das negociatas envolvendo integrantes dos dois grupos políticos.
Em nota distribuída pelo Palácio do Eliseu, Chirac acusa o primeiro-ministro de ter perdido o sangue-frio ao tentar responsabilizá-lo por "problemas opacos" que envolvem a prefeitura de Paris, controlada há mais de duas décadas pelos gaullistas - e onde se encontra atualmente um ex-adjunto do presidente, Jean Tiberi. Chirac foi implicitamente responsabilizado por irregularidades pelo chefe do governo, que se dirigiu irritado aos parlamentares da oposição na Assembléia Nacional, dizendo: "Se vocês procuram a gestão de uma infra-estrutura em que as vantagens pessoais estão intimamente ligadas por mais de 20 anos, não olhem para o meu lado."
A réplica do presidente foi imediata. Ele disse que "a insinuação jamais serve à verdade." Chirac ressaltou ainda que "se algo deveria ser dito, esperava que fosse feito de forma clara e franca". Jospin acusa implicitamente o presidente da república de organizar a ofensiva da oposição no caso Mnef - seguradora de estudantes que se encontra na origem da queda do superministro da Economia. Na véspera, num encontro entre os dois no Palácio do Eliseu, o primeiro-ministro havia prevenido o presidente de que não deixaria sem resposta tentativas de implicá-lo no caso da Mnef.
Não é a primeira vez que isso ocorre. Os socialistas lembram que, no mês de maio, o secretário-geral do Palácio do Eliseu, Dominique Villepin, inspirou a redação de uma nota acusando o primeiro-ministro de ter ocupado um emprego fictício na chancelaria francesa. Na verdade, Jospin, integrante do quadro do Ministério das Relações Exteriores, na época na oposição e vivendo momentos políticos difíceis no Partido Socialista, reivindicou o cargo de embaixador em Praga. Mas o então primeiro-ministro, Alain Juppé, manteve-o na "geladeira" - decisão da qual hoje se arrepende profundamente. Se ele tivesse atendido Jospin, enviando-o a Praga, teria evitado a vitória eleitoral dele. Pouco tempo depois, Jospin viria a suceder o próprio Juppé na chefia do governo francês.
Hoje, a crise na coalizão governamental agravou-se com uma declaração do deputado comunista Maxime Gremetz. Vice-presidente da CPI do caso Mnef, ele disse que outros nomes de dirigentes socialistas deverão ser investigados pela Justiça como implicados no escândalo de malversação de milhões de francos da seguradora dos estudantes. E antecipou alguns, como os deputados Julien Dray, Jean-Marie le Guen e Jean-Christophe Cambadellis (número 2 do PS). Pouco depois, a direção do PC criticou Gremtz, informando que a posição dele contraria a da Comissão Nacional do partido. Os deputados socialistas apresentaram queixa na Justiça contra seu detrator. Ao contrário do que esperavam, os socialistas não estão encontrando solidariedade na própria base parlamentar.

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