PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 03 de novembro de 1999
Por Ariel Palacios 
Buenos Aires, 04 (AE) - "Essa história de roubo de menores é puro papo, é uma barbaridade que inventaram". Com estas palavras, o general Luciano Benjamín Menéndez negou que durante a última Ditadura Militar foram sequestrados filhos de desaparecidos políticos. Organizações de direitos humanos calculam que existam mais de 500 crianças sequestradas, das quais 64 foram localizadas e menos de 30 foram recuperadas por suas famílias originais.
Menéndez, que foi o comandante das tropas argentinas durante a derrota na Guerra das Malvinas (1982), tentou eximir-se da culpa da repressão, dizendo que cumpriu ordens baseadas nos decretos que autorizavam a "aniquilação da subversão" assinadas pela presidente Isabelita Perón. O cumprimento das ordens, no entanto, não foi contestado: "Nunca ninguém cumpriu ordens que não parecessem corretas". Menéndez sustenta que não houve "guerra suja", e que ele combateu "a subversão marxista".
Em 1989, o militar já havia dito que jamais havia causado danos irreparáveis a ninguém que não fosse comunista.
As declarações de Menéndez coincidem com o anúncio do pedido de extradição de 98 ex-repressores argentinos por parte do juiz espanhol Baltazar Garzón. O juiz pretende julgar na Espanha os militares argentinos envolvidos em graves violações dos direitos humanos. Segundo Menéndez, a decisão de Garzón é "uma insolência", e que "estamos voltando à época colonial, onde o que acontece na Argentina é julgado na metrópole".
No entanto, a diretriz dada por decreto pelo presidente Carlos Menem é a de não colaborar com a Justiça espanhola. Menem sustenta que os ex-repressores já foram julgados por seus crimes. Entre 1989 e 1990, todos os envolvidos foram indultados, o que segundo Menem, seria mais um motivo que impediria um novo julgamento.
Além disso, o presidente argentino defende o princípio de territorialidade, pelo qual um criminoso argentino deve ser julgado no próprio país. Menem argumenta que se um juiz espanhol pretende processar um ex-repressor argentino, um juiz argentino pode processar pessoas envolvidas em violações cometidas durante a ditadura franquista (1936-75) na Espanha.
Na chancelaria argentina, já se estuda uma posição a ser levada na reunião de cúpula ibero-americana a ser realizada em Havana daqui a dez dias. Se o Chile se confrontar com a Espanha por causa da extradição do general Augusto Pinochet, a Argentina ficará do lado chileno. Adolfo Pérez Esquivel, o argentino Prêmio Nobel da Paz, criticou o governo de seu país, declarando que "não se pode argumentar questões de soberania nos crimes contra a Humanidade.


