Assunção, 04 (AE-IPS) - O governo do Paraguai ficou hoje (04) sob suspeita de manipular a investigação do assassinato do vice-presidente Luis María Argaña, ao qual culpa o ex-general Lino Oviedo, asilado na Argentina, quando a principal testemunha do caso admitiu que quer mudar seu depoimento, mas teme por sua vida.
Gumercindo Aguilar, um ex-condenado com ordem de prisão e que recebe salário da Presidência como eletricista, transformou-se na estrela do caso do atentado contra Argaña, que era presidente do governista Partido Colorado e estava em disputa com Oviedo quando foi morto em 23 de março.
Aguilar foi chave na acusação, pois se apresentou como testemunha de uma reunião na localidade de Pedro Juan Caballero, fronteira com o Brasil, na qual Oviedo, o deputado Conrado Pappalardo, o senador Víctor Galeano e um governador teriam supostamente organizado o complô para assassinar Argaña.
A cassação de senadores e deputados, acusados de responsabilidade no assassinato e na morte de sete jovens que defendiam a sede do Congresso durante a crise de março, serviu para acabar com o peso político do grupo oviedista no parlamento.
Mas a acusação de Aguilar, fundamental no processo contra Oviedo, não foi respaldada por provas, e ele acabou confessando na quarta-feira que teme ser preso e assassinato se se desdizer, informou Luis Alfonso Resck, assessor da Procuradoria-Geral e renomado defensor dos direitos humanos.
Resck entrevistou Aguilar no edifício do ABC Color, um diário de Assunção tido como oviedista e que tem denunciado como falso o testemunho. Aguilar preferiu continuar no prédio com sua família à espera de seu advogado.
"Não quero ser preso porque vão me matar", afirmou Aguilar a Resck, que o colocou em contato por telefone com o procurador-geral Aníbal Cabrera Veron, que, por seu lado, prometeu dar garantias de vida a ele e à sua família, sob custódia judicial.
Um procurador foi na noite de quarta-feira à sede do ABC Color
enquanto Resck denunciava "os que estão nas alturas", porque "pretende-se confundir a opinião pública com fontes incertas" em favor de "interesses menores".
Aguilar assinalou que teme "ter o destino de Coco Villar", motorista de um senador oviedista acusado de ser o executor do assassinato. Villar foi morto por agentes antidrogas quando negociava sua apresentação a legisladores para provar sua inocência.
Villar tinha os cabelos até a cintura, enquanto que as testemunhas do assassinato de Argaña garantiam que os pistoleiros tinha os cabelos curtos.
O testemunho de Aguilar serviu como base para se pedir à Argentina a extradição de Oviedo e para votar a cassação dos parlamentares oviedistas e para se deter partidários do ex-general, como o guarda-costas Máximo Osorio, o capitão Alfredo Florenciañez e o governador Víctor Hugo Paniagua.
Florenciañez e Paniagua foram postos em liberdade condicional na terça-feira, e mesmo o governador reassumiu suas funções. Quanto a Osório, ele também será libertado.
Não há provas da participação de Osorio na morte de Argaña e um novo detido, confesso membro do comando que executou o assassinato, não o mencionou ao identificar seus cúmplices.
A nova testemunha, Pablo Vera Esteche, fez na quarta-feira uma reconstituição do crime, que promotores consideraram "crível". Sua declaração abafou o testemunho de Aguilar, que já havia sido desvalorizado quando foi comprovado que ele recebia salário da Presidência e tinha contra ele uma ordem de prisão por roubo.
A justiça havia suspendido a reconstituição no sábado devido a ameaças de morte contra um juiz, contra Vera Esteche e contra o motorista de Argaña, único sobrevivente do atentado, que reconheceu o último detido e duas outras pessoas, Luis Alberto Rojas e Fidencio Vega, como participantes do crime.
O ministro do Interior, Walter Bower, defendeu a versão de Aguilar, argumentando que ela é "conciliável" com a de Vera Esteche, pois um fala do plano e o outro relata a execução, e sustentou que Oviedo foi o autor "moral" do atentado.
Por seu lado, Aguilar acredita estar passível de ser acusado de perjúrio, um delito punido com prisão, e buscou refúgio no ABC Color, o diário que assinalava suas contradições.
No jornal, ele afirmou que sua vida correrá perigo "se disser a verdade" e que está "cansado de ficar protegido em quartéis", onde o governo o mantém sob custódia, informou Resck.
Também acabou ficando sob suspeita de manipulação oficial o caso do confesso Vera Esteche, detido por forças militares em 23 de outubro por iniciativa do ministro da Defesa, Nelson Argaña, filho do vice-presidente assassinado, que é crítico da atuação da polícia.
Vera Esteche só foi levado perante a um juiz cinco dias depois de sua detenção. As autoridades alegaram que tentaram usá-lo como isca para atrair seus cúmplices da Argentina até a fronteira com o Brasil, em Foz do Iguaçu.
A testemunha foi apresentada numa entrevista coletiva, onde sustentou que só disparou contra o motorista de Argaña, que sobreviveu ao atentado, e garantiu que foi seus companheiros que atiraram contra o vice-presidente e um assessor, que também morreu.
Vera Esteche disse que Oviedo e o então presidente Raúl Cubas, exilado no Brasil, prometeram pagar US$ 300 mil pelo assassinato de Argaña.
Ele também apontou como intermediário o oviedista Reinaldo Servín, detido há dois meses por ter um depósito de armas e que, segundo o diário La Nacíon, "tem urinado sangue" em consequência de torturas que teria sofrido para incriminar Oviedo.
O vínculo de Servín com o caso Argaña seriam chamadas registradas entre seu telefone celular e o de um comprador de veículos roubados, Constantino Rodas, que é acusado de ter fornecido carros e dados para o atentado. Mas ele garante ser inocente.
Vera Esteche disse várias vezes que o dinheiro prometido, do qual só teria recebido US$ 25 mil, seria pago por "Oviedo, Pappalardo, Cubas e Galeano". Mas ele esclareceu que nunca viu ou falou com eles, e que a informação lhe foi passada por um outro implicado, a quem chamou de "Condorito" Rodas.
"Cada vez estamos mais confusos, com um dia acusando a uns e logo mudando para outros, libertando os primeiros", observou Resck.
"Não é só eu que estou confuso, mas também os diplomatas trabalhando no Paraguai", advertiu.

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