Washington, 04 (AE) - Nos últimos dois dias, alguns brasileiros procuraram disfarçar seu espanto e pavor diante do massacre do Morumbi Shopping com tiradas de humor negro. "Finalmente chegamos ao Primeiro Mundo", disse hoje (04) um executivo da área de investimentos de São Paulo num telefonema a um amigo na capital norte-americana. "Já estamos matando gente como vocês aí nos Estados Unidos."
A piada não tem graça, até porque a violência armada é, há muito, parte do cotidiano dos brasileiros. E os massacres tampouco são ocorrências incomuns no País - com a diferença, em relação aos EUA, de que, nesse caso, as vítimas costumam ser gente pobre, como camponeses sem terra de Eldorado de Carajás e presidiários do Carandiru, e os criminosos, policiais fardados que ficam impunes.
Não por acaso, o Brasil já é o segundo país mais violento do mundo pelo critério de mortes por ano envolvendo armas de fogo (14,15 por 100 mil pessoas), depois dos EUA (15.22 por 100 mil), de acordo com dados compilados pela revista Newsweek.
Mas a imagem de um jovem de classe média que se droga e abre fogo contra uma multidão no meio de um elegante shopping center de São Paulo é, definitivamente, uma novidade importada dos Estados Unidos.
Se a tragédia do Morumbi Shopping não mereceu maior atenção na grande imprensa americana é apenas porque os jornais e emissoras de televisão aqui estiveram ocupados nos últimos dias com sua própria safra de massacres.
Até hoje, a política de Seattle continuava a buscar o homem que matou dois empregados de uma oficina de conserto de barcos e deixou mais dois feridos na cidade na quarta-feira.
Um dia antes, Byran Uyesi, um funcionário da Xerox em Honolulu
Havaí, executou sete colegas de trabalho, por razões até agora desconhecidas sabidas. Uyesi entregou-se à polícia.
O presidente Bill Clinton e a secretária da Justiça, Janet Reno, usaram os dois episódios para renovar seus apelos ao Congresso para que aprove novas restrições à compra e ao porte de armas de fogo. A maioria esmagadora dos americanos apóia tais restrições. Mais de 90% acham que a venda de armas novas deve ser restringida pela imposição de um período mandatório de espera, durante o qual se possa verificar os antecedentes do interessado.
Cerca de três quartos são pela criação de um sistema de registro obrigatório de armas. E, num claro sinal de que o público está cansado e exige uma solução, 78% dos eleitores dizem que o controle das armas deve ser um dos temas fortes da campanha presidencial que está começando.
São remotas, no entanto, as chances de que as duas ocorrências da semana do que os norte-americanos chamam de "assassinatos múltiplos" levem à ação um Congresso cujas engrenagens são azeitadas, em grande parte, pelo dinheiro do poderoso lobby da indústria das armas de fogo. Se a frequência dos massacres fosse um fator nessa decisão, ela provavelmente já teria sido tomada.
Somente este ano, o país já assistiu a nada menos de 13 episódios de violência nos quais um ou mais atacantes usaram armas de fogo para manifestar sua ira e acertar contas com o mundo. O saldo de vítimas está em 51 mortos e 40 feridos.
Computados apenas os ataques perpetrados por funcionários ou ex-funcionários de uma empresa ou repartição pública contra seus chefes e/ou colegas, houve quinze casos desde agosto de 1986, com 91 mortos e 35 feridos. A esses mortos devem-se somar os cadáveres de oito dos assassinos, que, na maioria dos casos, se suicidam depois de completar a matança.
A repetição dos ataques armados nas escolas, nos últimos três anos, deram nova visibilidade e peso político à discussão sobre a violência armada nos EUA. Esses episódios, por mais dramáticos e televisivos que sejam, contam apenas uma parte - e não a mais importante - da história.
Segundo o Centro Nacional de Segurança nas Escolas, as 25 mortes violentas de estudantes registradas desde o ano passado, que incluem 15 no colégio público de Columbine, perto de Denver, representaram um declínio quando comparado ao início dos anos 90
quando a média anual chegou a 50 alunos assassinados em suas escolas. Mais alarmante é o a estatística sobre mortes de crianças e adolescentes em crimes, suicídios e acidentes envolvendo armas de fogo. Desde 1997, elas somam 4.223 menores.
A programação da televisão é frequentemente citada como um dos fatores que contribui para alimentar a cultura da violência nos EUA.
Mas a explicação mais sensata está provavelmente na proliferação das armas de fogo num país onde o direito a possuí-las está consagrado na Constituição. Há, em circulação, quase duas armas por cada americano adulto. Cinco modelos são os mais produzidos, exportados e usados pelos perpetradores de atos de violência: a pistola Smith & Wesson, calibre .40; o revólver Smith & Wesson modelo 19, calibre .357 magnum; a espingarda de repetição Mosswberg 12; a metralhadora portátil Uzi de 9 milímetros; e o rifle semi-automático Mauser de 7 milímetros.

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